Bastidores da imprensa

Caso Vorcaro provoca demissão na Globo e expõe alterações em reportagens do Metrópoles

Mensagens divulgadas pelo UOL revelam negociações comerciais e pedidos de mudanças em conteúdos jornalísticos; Banco Master mantinha contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal

Silas Santos3 min de leitura
Homem em camisa social azul listrada em ambiente externo e homem em terno azul com microfone em evento.
Homem em camisa social azul listrada em ambiente externo e homem em terno azul com microfone em evento.

A divulgação de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, provocou repercussão nos bastidores da imprensa brasileira. Nesta quinta-feira (15), o Grupo Globo anunciou a demissão de Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após a revelação de conversas consideradas inadequadas pela empresa. O caso também envolveu o portal Metrópoles, após mensagens indicarem que o empresário solicitava alterações em reportagens antes da publicação.

Segundo reportagens do UOL, Kachar, que trabalhava havia 29 anos no Grupo Globo, mantinha conversas com Vorcaro sobre patrocínios, conteúdos jornalísticos e divulgação de marcas ligadas ao empresário. Entre os episódios relatados está a tentativa de ampliar o espaço de divulgação de uma marca associada a Martha Graeff, então namorada de Vorcaro, em publicações como Vogue e Marie Claire.

Em comunicado, o Grupo Globo afirmou que as mensagens demonstravam uma relação inadequada entre o executivo e um anunciante. A empresa reafirmou seu compromisso com a ética, a transparência e a independência editorial.

Metrópoles: 11 reportagens teriam sido alteradas após pedidos

As revelações envolvendo o Metrópoles indicam uma situação distinta. Conforme levantamento divulgado pelo UOL, pelo menos 14 textos foram enviados antecipadamente a Vorcaro, dos quais 11 passaram por alterações após solicitações do empresário.

As mensagens mostram contato direto entre Vorcaro e Lilian Tahan, diretora-executiva do portal. O relacionamento ocorreu no período em que o Banco Master mantinha um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o veículo, segundo a reportagem.

Em uma das conversas reproduzidas pelo UOL, após o empresário contestar uma informação publicada, Lilian respondeu: “Tiramos”.

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Questionada pelo veículo, a executiva afirmou que consultar fontes antes da publicação faz parte da rotina jornalística de verificação de informações. Ela também negou que o contrato publicitário tivesse relação com a cobertura editorial e destacou que o portal publicou reportagens críticas sobre empresas ligadas a Vorcaro.

Independência jornalística em discussão

Os episódios reacendem o debate sobre os limites entre relações comerciais, contato com fontes e autonomia editorial.

Contratos publicitários e consultas a fontes são práticas legítimas no funcionamento de veículos de comunicação. A questão ganha outra dimensão quando um anunciante ou personagem de uma reportagem solicita mudanças no conteúdo e essas alterações são incorporadas à publicação.

As mensagens divulgadas levantam questionamentos sobre os mecanismos de proteção da independência editorial e a transparência nas relações entre empresas de comunicação e seus anunciantes. No entanto, cada episódio precisa ser analisado individualmente, sem presumir que toda alteração solicitada tenha sido motivada por interesses comerciais ou que tenha havido favorecimento em toda a cobertura.

O caso amplia a discussão sobre a responsabilidade dos veículos em preservar a autonomia das redações e garantir que decisões jornalísticas sejam orientadas pelo interesse público.

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