Página Três

Eles lideram a Igreja Quadrangular

Entre tiros, enchentes e fé: a história de Waldir e Niva que atravessa quatro décadas em Encantado

Pastores da Igreja do Evangelho Quadrangular revelam no Página Central episódios marcantes da trajetória: Waldir contou que tentou tirar a própria vida duas vezes antes de encontrar na fé um novo caminho; casal enfrentou ameaças, preconceito, enchentes e construiu uma história que já soma 42 anos em Encantado

Antes do púlpito, havia os bailes. Antes de liderar igrejas, houve momentos em que a própria vida parecia não ter mais saída. E, muito antes de serem conhecidos como os pastores Waldir e Niva Grooders, havia um jovem casal do interior de Forquetinha tentando construir o próprio caminho.

Em uma entrevista marcada por lembranças, fé e revelações pessoais, os pastores contaram ao Página Central, do Jornal Força do Vale, episódios de uma história que se confunde com as mais de quatro décadas da Igreja do Evangelho Quadrangular em Encantado.

Um dos relatos mais fortes veio de Waldir. Aos 22 ou 23 anos, vivendo uma fase difícil, ele revelou que tentou tirar a própria vida em duas ocasiões. Foi justamente naquele período, segundo contou, que a aproximação com a fé passou a transformar sua trajetória.

A mudança foi profunda. Filho e neto de músicos, Waldir tocava contrabaixo na Super Banda Guarujá, de Arroio do Meio, participou da gravação de dois LPs e percorreu salões de baile da região. Mesmo depois de começar a frequentar a igreja, ainda permaneceu algum tempo nos palcos para cumprir os contratos que já havia assumido. Depois, deixou a vida dos bailes e seguiu definitivamente outro caminho.

Niva esteve ao lado dele durante toda essa transformação. Os dois se conheceram ainda jovens, foram vizinhos, namoraram por cinco anos e se casaram em 1979.

Fé colocada à prova

A caminhada pastoral não foi feita apenas de momentos tranquilos.

Durante a entrevista, Waldir revelou que já recebeu ameaças e recordou um episódio em que um disparo teria atingido a porta do veículo em que estava. O pastor apresentou o caso como uma das experiências mais delicadas vividas ao longo do ministério.

Também contou uma história que guarda entre as mais marcantes desde que chegou a Encantado. Chamado para orar por um homem que sofria com fortes dores e tinha dificuldade para caminhar, Waldir afirmou que, posteriormente, a família relatou uma melhora durante a madrugada. Para ele, aquele episódio tornou-se uma das experiências de fé que marcaram o início de sua missão na cidade.

Décadas depois, outra prova viria pela força da natureza.

As enchentes (23/24) atingiram as duas igrejas da Quadrangular em Encantado. Em uma delas, a água chegou ao segundo pavimento. No templo do bairro Planalto, ficou aproximadamente meio metro acima do altar. Pisos recém-colocados precisaram ser arrancados, bancos foram atingidos e estruturas reconstruídas. Em um dos episódios mais frustrantes, uma obra recém-concluída precisou ser refeita depois de uma nova inundação. Mesmo diante das perdas, as comunidades voltaram a erguer os espaços. Segundo os pastores, boa parte da reconstrução foi possível com recursos dos próprios fiéis.

“Parece que não pode errar nunca”

A vida dentro da igreja também trouxe cobranças para dentro de casa.

Niva lembra que os filhos de pastores cresceram sob um olhar diferente da comunidade. Situações normais da infância ou da adolescência muitas vezes ganhavam outro peso simplesmente por serem filhos de líderes religiosos.

Para o casal, foi preciso aprender a separar o ministério da vida familiar e compreender que os filhos também tinham direito de viver a infância, fazer escolhas e construir seus próprios sonhos.

A música, curiosamente, nunca desapareceu totalmente da família. O filho seguiu ligado a ela e, agora, o neto também demonstra interesse.

Mulher no púlpito

Niva também falou sobre um tema que ainda provoca resistência em alguns ambientes religiosos: mulheres exercendo o pastorado.

Ela lembra que a própria Igreja do Evangelho Quadrangular nasceu sob a liderança de uma mulher, Aimee Semple McPherson, nos Estados Unidos. Mesmo assim, relata que ainda encontra resistência em determinados espaços por ser pastora. Para Niva, ocupar o púlpito não é apenas uma função dentro da denominação, mas parte de uma caminhada construída ao longo de décadas ao lado do marido.

De vereador a líder regional

A atuação de Waldir ultrapassou os limites de Encantado. Atualmente, ele integra a direção estadual da Igreja do Evangelho Quadrangular como primeiro tesoureiro e exerce liderança regional sobre uma estrutura que reúne 12 igrejas em municípios do Vale do Taquari e regiões próximas.

Também teve passagem pela política como vereador e recordou uma época em que famílias evangélicas enfrentavam dificuldades até mesmo para sepultar seus mortos em cemitérios locais — realidade que, segundo ele, mudou ao longo dos anos. Em Encantado, Waldir participou ainda da construção de três igrejas.

Hoje, as duas comunidades locais da Quadrangular chegam a reunir perto de 400 famílias em celebrações como a Santa Ceia.

Muita coisa mudou desde o início

As visitas de casa em casa deram espaço também às mensagens pelo celular. Telões passaram a fazer parte dos cultos. Sistemas digitais registram informações administrativas da igreja. A pandemia tornou as famílias mais reservadas e as redes sociais alteraram a forma de relacionamento entre as pessoas.

Mas, para Waldir e Niva, o ponto central permanece o mesmo: a fé e a disposição de estar perto de quem procura ajuda.

Aos 42 anos de presença da Igreja do Evangelho Quadrangular em Encantado e perto de completar 47 anos de casamento, eles carregam uma trajetória feita de perdas, reconstruções e escolhas.

Dos bailes ao altar. Das crises pessoais ao ministério. Das igrejas tomadas pela água à reconstrução. Entre ameaças, cobranças, família e fé, Waldir e Niva construíram uma história que acabou se tornando também parte da história de Encantado.

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