Cali Schaffer

Filme velho

Redação3 min de leitura

“República no Brasil é coisa impossível, porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal educados para republicanos”.

(Deodoro da Fonseca, o proclamador da República).

Nos últimos dias o Brasil acompanha, estarrecido, o esforço dos governistas em aprovar uma lei que visa exclusivamente calar a boca dos opositores, com o único objetivo de evitar as críticas que se avolumam, dia a dia.
O escritor Laurentino Gomes, no seu excelente livro 1889, que trata com detalhes sobre os acontecimentos que envolveram a proclamação da república, conta que no dia 23 de dezembro de 1889, apenas cinco semanas depois da queda da monarquia, os novos governantes já ameaçavam opositores com “as penas dos artigos de guerra, arcabuzamento inclusive”. Arcabuzamento significava a execução por arcabuz, uma arma típica do século XIX, vale dizer, fuzilamento. No mês de março de 1890 um novo decreto previa punições a todas as pessoas acusadas de pôr em circulação pela imprensa, pelo telégrafo, ou por qualquer outro meio, de “falsas notícias e boatos alarmantes, dentro ou fora do país, que se referissem à indisciplina do Exército, à estabilidade das instituições ou à ordem pública”. Como acontece agora, eram eles quem definiam quais notícias e boatos eram os falsos e alarmantes. Era implementação da censura absoluta.

No livro a que me refiro consta ainda a informação de que o Senado do Império, onde tinham assento as maiores personalidades da Monarquia, não formulou qualquer voto de protesto ao se reunir, pela última vez, no dia 16 de dezembro. Ao contrário do que se esperava, as adesões mais rápidas e entusiasmadas vieram dos mais proeminentes políticos monarquistas, dos condes, viscondes, barões e de outros fidalgos, tidos antes como o sustentáculo do Império.

O adesismo era tão grande que já no dia 20 até João Antônio Saraiva, o conselheiro que dom Pedro II chamara com urgência na madrugada de 16 de novembro, na desesperada tentativa de preservar a coroa e recompor o ministério destituído pelos revoltosos, aderia ao novo regime. E até avisou os amigos que seria inútil resistir porque ele havia chegado para ficar.

Alguns dias depois da proclamação da república os novos donos do poder realizaram uma passeata pelas ruas da cidade. O povo, postado nas calçadas, que nem sabia o que estava acontecendo, assistia passivamente e até aplaudia, pensando tratar-se de uma parada militar.

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Hoje, quando os cidadãos sabem bem o que está acontecendo, a tentativa de calá-los é mais que evidente. São, nessa ordem, primeiro presos, depois denunciados, processados e por fim serão julgados pela mais alta Corte do país, no caso deles, a primeira e a última, do que decorre que, se condenados, não terão possibilidade de interpor qualquer tipo de recurso à uma instância superior.

Leiam o livro, e saberão que este adesismo imediato, o silencio praticamente absoluto, e o exclusivo interesse pessoal envolvido nas decisões, é um filme velho sobre a história do Brasil, já passado diversas vezes nos cinemas nacionais, aos quais o povo brasileiro não têm sequer acesso às bilheterias.

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