Página Três

Renira T. Turatti Ost[email protected]

A lei do próprio umbigo

Atualizado em 12/10/2026 às 20h223 min de leitura

O trânsito de Encantado voltou a dar o que falar nas últimas semanas. Acidentes na área urbana, discussão e indignação nas redes sociais e até uma audiência pública trouxeram o assunto de volta. Com ele, vieram as soluções fáceis.

Falta rotatória, dizem uns. Falta sinaleira, dizem outros. Mais lombada, mais placa, mais fiscalização — cada morador tem a sua fórmula para um problema que, na rua, é bem mais complicado do que instalar um equipamento ou trocar uma regra.

Quase todas essas propostas, porém, nascem da mesma ideia: o problema está sempre no outro. No motorista imprudente, no pedestre distraído, na prefeitura que não age, no vereador que não resolve, na lei ultrapassada. Quase ninguém se coloca na conta.

Mas basta olhar os acidentes mais comentados para ver o que eles têm em comum: o desrespeito a normas que já existem. Placa ignorada, preferencial desconsiderada, excesso de confiança, distração, decisão errada ao volante. Não eram cruzamentos sem regra. Na maioria, a regra estava lá — só não foi cumprida.

Os “acidentes” de tanta repercussão dificilmente se explicam só pela falta de infraestrutura. Todos têm um ponto em comum: a falha humana.

Parece que desaprendemos a viver junto. Ou talvez nunca tenhamos aprendido direito. O trânsito é um dos retratos mais fiéis da convivência: ali é preciso dividir o espaço, respeitar o limite, ceder passagem, esperar a vez e aceitar que o outro tem os mesmos direitos que nós.

Só que vivemos um tempo em que a lei que mais vale é a do próprio umbigo.

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Queremos mudança, contanto que não mexa na nossa rotina. Somos a favor da fiscalização, desde que recaia sobre os outros. E cobramos respeito às regras até o instante em que elas nos pedem para tirar o pé, esperar alguns segundos ou abrir mão de um hábito cômodo.

Claro que o trânsito de Encantado precisa ser revisto sempre. Há ajustes a fazer agora, e haverá outros amanhã: a cidade cresce, o fluxo muda e cabe ao poder público acompanhar esse movimento.

Mas nenhuma rotatória, sinaleira ou lombada substitui o que falta na origem de tantos casos: a responsabilidade de cada um.

Antes de pensar em obra nova, talvez valha retomar uma ideia antiga. Nenhuma engenharia de trânsito dá conta do problema enquanto o motorista achar que a placa é para os outros, o pedestre achar que a preferência é sempre dele e cada um se enxergar como exceção.

Dirigir não é uma queda de braço por autoridade na via; é um exercício diário de convivência.

E enquanto procurarmos culpados em toda parte, menos em nós mesmos, vamos seguir discutindo os mesmos acidentes, as mesmas queixas e as mesmas soluções milagrosas.

Talvez o maior congestionamento de Encantado não esteja nas ruas, mas na nossa dificuldade de entender que viver em sociedade impõe limites — inclusive a nós mesmos.

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