Quase 98% dos suspeitos de violência extrema no RS são menores de 18 anos

Crianças e adolescentes estão no centro de um problema que preocupa autoridades no Brasil e no exterior: a aproximação de jovens vulneráveis por grupos e indivíduos que atuam pela internet e incentivam violência, automutilação e outros comportamentos de risco.
No Rio Grande do Sul, dados do Ministério Público mostram que, dos 188 suspeitos identificados em casos acompanhados pelo Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve) em 2026, 184 tinham menos de 18 anos. O índice chega a 97,87%.
Até 12 de agosto, o núcleo havia analisado 263 eventos relacionados à violência extrema. Destes, 207 foram confirmados ou permaneciam em avaliação e 56 foram descartados. As ocorrências alcançaram 126 municípios gaúchos.
Em 2025, foram analisados 491 eventos e, em 2024, 158. Como os dados de 2026 ainda são parciais, não é possível afirmar que este ano já tenha superado o anterior.
Em agosto, o Ministério Público criou a Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital (Proeve), primeira estrutura especializada desse tipo no país. O trabalho é conduzido pelos promotores Leonardo Rossi e Rodrigo Mendonça.
Jovens cada vez mais conectados
A dimensão do problema também passa pelo número de crianças e adolescentes presentes na internet.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 aponta que 92% das pessoas de 9 a 17 anos no país utilizaram a internet nos três meses anteriores ao levantamento. Na Região Sul, o percentual chega a 96%.
Durante a pandemia, o tempo diante das telas aumentou ainda mais. Pesquisa da Fiocruz, UFMG e Unicamp, realizada com 9.470 adolescentes, mostrou que mais de 60% passavam mais de quatro horas por dia em frente às telas apenas para lazer, além do período destinado às aulas.
O maior tempo conectado não significa, por si só, envolvimento com violência. Especialistas apontam que situações de risco podem reunir fatores como isolamento, bullying, sofrimento emocional, necessidade de aceitação e contato com pessoas que exploram essas vulnerabilidades.
FBI faz alerta a pais e responsáveis
Nos Estados Unidos, o FBI também acompanha o crescimento dessas redes. Em setembro de 2026, a agência informou investigar mais de 500 pessoas ligadas a grupos violentos que atuam pela internet.
Segundo o FBI, os criminosos costumam se aproximar de crianças e adolescentes pelas plataformas digitais, estabelecendo primeiro uma relação de confiança. Depois, podem partir para manipulação, ameaça e chantagem.
Em alerta divulgado neste ano, Ted E. Docks, agente especial responsável pela divisão do FBI em Boston, afirmou que as autoridades estão chamando a atenção para o problema para evitar que mais crianças se tornem vítimas. Segundo ele, reconhecer os sinais pode ajudar famílias a proteger os filhos e impedir que agressores façam novas vítimas.
O FBI aponta entre os sinais de atenção mudanças repentinas de comportamento, isolamento, irritabilidade, alterações de sono e alimentação, ferimentos sem explicação, preocupação excessiva com contatos virtuais e ameaças relacionadas à exposição de informações pessoais.
Casos reais já foram investigados no Brasil
Em 2025, o programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, dedicou uma edição especial ao tema. Intitulado Adolescência Conectada ao Perigo, o programa apresentou casos reais e ouviu especialistas sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes.
Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, alertou que, por meio de um celular, jovens podem acessar conteúdos de extrema violência, entrar em contato com criminosos e ser recrutados para a prática de crimes.
Especialistas entrevistados também apontaram isolamento repentino, mudanças no sono e na alimentação, irritabilidade, agressividade e interesse crescente por violência como comportamentos que merecem atenção.
E o Vale do Taquari?
Até setembro de 2026, não há levantamento público indicando quantos casos de aliciamento, ameaça, chantagem ou incentivo à violência extrema pela internet ocorreram especificamente no Vale do Taquari.
A região, porém, apresenta indicadores de saúde mental que exigem atenção.
Pesquisa divulgada pela Univates em maio de 2026 analisou 170 moradores da região. Destes, 119 tinham histórico de tentativa ou pensamento suicida e 51 integravam o grupo de comparação. O estudo encontrou associação entre comportamento suicida, desesperança, impulsividade e traumas vividos na infância.
Os pesquisadores ressaltam que o suicídio tem causas múltiplas. Os dados não permitem estabelecer relação direta entre esses casos, uso da internet ou grupos violentos.
O que fazer
Ao perceber mudanças importantes de comportamento, a orientação é conversar com o jovem sem julgamento e procurar entender o que está acontecendo.
Em caso de ameaça, chantagem ou suspeita de crime, mensagens e informações que possam ajudar na investigação devem ser preservadas, sem compartilhar imagens ou conteúdos ilegais.
A Polícia Civil pode ser acionada para o registro da ocorrência. Em situação de risco imediato, o contato deve ser feito pelo 190. O Conselho Tutelar e o Disque 100 também integram a rede de proteção.
Mais do que controlar o número de horas diante das telas, o alerta para pais e escolas é acompanhar com quem crianças e adolescentes estão conversando, quais conteúdos acessam e, principalmente, mudanças no comportamento que indiquem que algo não vai bem.






