Pau que bate em Chico

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Dois grandes jornais amanheceram domingo com editoriais condenando a censura que o Judiciário fez sobre reportagem de Zero Hora, com o escandaloso contracheque de uma desembargadora, de 662 mil reais num único mês. O jornal e a jornalista autora foram condenados pelo próprio tribunal a que pertence a desembargadora a uma indenização – coincidência – de outros 600 mil. O teto, no serviço público, é de pouco mais de 46 mil, e a Constituição diz que a administração pública exige legalidade, moralidade, publicidade. A remuneração é, portanto, pública. Ficou parecendo uma vindita, um aviso de não se meter com o Judiciário, como um reflexo de reações do Supremo. O Estadão intitulou o editorial de “Uma Casta Acima da Lei” e concluiu ponderando que um poder sem limites se torna tirania. A Folha de S.Paulo, no título, chamou de “Censura do Judiciário” e concluiu que ela serve para intimidar veículos de comunicação e seus profissionais. Reações bem tardias contra algo que se repete nos últimos seis anos.

Quando o Judiciário bloqueou contas nas redes e nos bancos, e até cassou passaportes de jornalistas que atuam no mundo digital, não lembro de ter havido editoriais condenando a censura, a intimidação e a justiça em causa própria, como represália por críticas. Como é verdadeiro o que disse o Ministro Moraes anos atrás: quem não quiser ser satirizado, criticado, que não se ingresse na vida pública. Assim como o editorial do Estadão afirmou ser constrangedor ter que repetir o óbvio – não há democracia sem imprensa livre –, sinto-me acaciano em ter que repetir o que está na Constituição: “é vedada toda e qualquer censura, de natureza política, ideológica e artística”.

No entanto, estamos em tempo de avanço de uma ideologia que não tem constrangimento em citar a China como modelo de “regulação” da voz digital do povo. O governo já tem um texto de projeto para inserir censura prévia no Marco Civil da Internet, sancionado por Dilma em 2015, depois de muito discutido no Congresso. O primeiro passo da censura foi dado quando a revista Crusoé foi impedida de circular com capa sobre “O Amigo do Amigo de meu Pai”, porque implicava um ministro do Supremo. O Judiciário é composto de pessoas públicas que não suportam crítica. Por isso foi instituído, na prática, o crime de opinião. A consequência é ter uma democracia de fachada, degradada. O Ministro aposentado do Supremo, Marco Aurélio Mello, chamou isso de “decadência”, que debilita todos os valores democráticos e fortalece o arbítrio.

A democracia só se sustenta com liberdade de expressão e respeito à Constituição. A AGU acaba de pedir liminar ao Supremo “para obrigar as plataformas a interromperem a disseminação de notícias falsas e impedirem a violência digital”, segundo a agência oficial. O argumento é incrível: o Marco Civil da Internet não pode ser usado como desculpa pela omissão de censura por parte das plataformas. Já que pegou idosos nos descontos da previdência, o governo agora alega que a censura nas redes é para proteger as criancinhas. Sendo a censura política, os censores de hoje podem ser os censurados de amanhã, como constataram tardiamente a Folha e o Estadão. Pois o mesmo pau que bate em Chico também vai bater em Francisco.

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