Entender
Desde a semana passada tenho dedicado um tempo para tentar entender o processo eleitoral que está em curso. E aqui faço uma ressalva: entender é apenas uma tentativa de compreender melhor, mesmo que isso possa, no atual contexto, ser quase impossível sem que se levante a cortina moral e ética existente no conceito particular de cada indivíduo sobre o modelo de sociedade que entende ser o melhor ou mais adequado. Isso me parece parte fundamental para, de fato, compreender o movimento.
Também compreendo que esse fenômeno, que se oculta nas profundezas dos egos, dificilmente terá exposição, pelo menos nesta época. Quem sabe, no futuro, historiadores poderão afirmar que nada veio de fora. Não veio de Marte, Saturno ou Urânio. Veio de dentro de cada um que optou por um dos lados do atual processo eleitoral.
Parece filosófico demais, até entendo. Pelo menos para aqueles que enxergam profundidade como “balela”, algo desnecessário e plenamente dispensável, porque imaginam que isso seja falta de posicionamento. Muito próprio de quem vê o horizonte no limite do próprio umbigo.
Visão
Nunca acreditei na imparcialidade total e na neutralidade absoluta na produção jornalística, pois quem a produz faz parte da sociedade e carrega, inevitavelmente, uma bagagem cultural, pessoal e editorial. Porém, a experiência produz uma visão e uma distância natural e necessária para questionar, e não simplesmente assumir uma seletividade movida por sentimentos, e não pelos fatos.
Faço esse recorte não para ser melhor ou pior diante de uma análise carregada das razões em que está situado o leitor e, por consequência, o eleitor, mas para seguir naquilo que entendo estar organicamente ligado ao desenvolvimento do meu ofício, mesmo sabendo que, atualmente, é um campo minado.
Meu propósito é de análise e, aqui, de opinião. Porém, quero guardar uma distância profilática e seguir em direção aos meus valores. Isso eu posso afirmar. Se serei entendido, isso, por si só, já não me pertence.
Junto
Na semana passada falei sobre o efeito de massa, justamente tentando compreender como o comportamento individual pode mudar quando passamos a fazer parte de um grupo que pensa, reage e se movimenta na mesma direção.
Quero avançar nesse movimento e transitar pela onda.
A onda eleitoral não carrega apenas quem tem força própria. Ela pode levar junto candidatos que, em outra circunstância, encontrariam enorme dificuldade para ganhar densidade política suficiente para serem eleitos.
Existe até uma expressão própria para isso: “rabo de casaca”. Na tradução popular, seria pegar carona na casaca de quem está puxando votos.
A polarização potencializa isso porque cria uma identificação que, muitas vezes, vem antes do próprio candidato. Ou seja: primeiro o eleitor escolhe o lado; depois começa a olhar quem está dentro dele.
Depois disso ocorre uma espécie de classificação: quando eu gosto muito de um lado, passo a detestar o outro. É nesse ponto que me parece faltar objetividade. Tudo o que é explicado fica no campo subjetivo, e os reais motivos permanecem, pelo menos no meu entendimento, nebulosos e difíceis de serem publicizados.
O senso crítico parece não funcionar. Aquilo que seria imperdoável no adversário encontra justificativa entre os meus. É mais ou menos o conhecido: “Sim, isso aconteceu, mas olha o outro”.
O eleitor não deixou de pensar. É mais complicado. Sua capacidade crítica, quando existe, passa a encontrar defeitos no adversário e compreensão para justificar os seus.
É nesse ponto que a onda ganha força.
Onda
Tem um filme que retrata esse movimento, claro, guardadas as devidas características. Nele, um professor faz uma experiência com os alunos para mostrar como nasce determinado movimento autoritário.
Começa com regras, disciplina e sentimento de grupo. Depois vêm os símbolos, a identidade comum e a divisão entre quem está dentro e quem está fora. Esse grupo passa a influenciar o comportamento individual. É isso que interessa aqui.
A onda surge quando o movimento coletivo começa a ficar maior do que a avaliação particular de cada um.
Na política acontece algo parecido. Primeiro escolhe-se o lado. Depois, passa-se a enxergar os possíveis candidatos a partir desse lado. Nesse momento, a polarização faz o resto: a onda cresce, carrega nomes, cria identidade e, por consequência, reduz a importância daquela que deveria ser a pergunta principal:
Quem é, afinal, o candidato em quem estou votando?
Candidatos
Depois disso tudo, proponho aqui um olhar para as candidaturas deste ano no Rio Grande do Sul.
Tem menos candidatos. Bem menos.
Quando comecei a olhar os nomes com um pouco mais de cuidado, encontrei coisas interessantes. Há muitos sobrenomes conhecidos, e vários deles aparecem mais de uma vez.
No Estado, são 1.048 pedidos de candidaturas em 2026. Em 2022, eram 1.433, uma queda de quase 27%. Na disputa proporcional, são 541 candidatos a deputado estadual e 454 a deputado federal.
Por aqui começaram a aparecer sobrenomes em candidaturas “casadas”. Talvez “casadas” seja mesmo uma boa palavra, e não apenas porque há marido e mulher concorrendo. Há pai e filho, irmãos, nora, cunhado. Famílias inteiras conseguem colocar mais de um nome na mesma eleição, muitas vezes em dobradinha entre Câmara Federal e Assembleia Legislativa.
O rabo de casaca começa a ficar mais fácil de enxergar.
Os Covatti
Os Covatti servem como exemplo clássico disso. Silvana Covatti concorre a vice-governadora. O filho, Covatti Filho, tenta a reeleição para deputado federal. Na disputa estadual aparecem ainda Sandro do Covatti, irmão de Silvana, e Nicole, esposa de Covatti Filho.
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Ou seja: mãe, filho, irmão e nora no mesmo processo eleitoral. Não se trata, então, apenas de sobrenome, mas de uma marca política construída ao longo do tempo.
Os Moraes
Em Santa Cruz do Sul, outro sobrenome bastante conhecido.
Marcelo Moraes tenta continuar na Câmara Federal. Kelly Moraes busca novo mandato na Assembleia. A família ainda tem Sérgio Moraes na Prefeitura de Santa Cruz e um filho na Câmara de Vereadores.
Aqui já existe uma estrutura política antes mesmo de começar a campanha.
Os Lorenzoni
Onyx Lorenzoni tenta voltar à Câmara Federal. Seu filho, Rodrigo Lorenzoni, busca a reeleição para deputado estadual.
Pai e filho, mesmo partido, mesma eleição e uma dobradinha assumida publicamente.
Aqui a pergunta sobre a onda fica interessante porque Onyx carrega um nome nacionalmente identificado com um dos lados da polarização: quanto dessa força chega junto ao voto proporcional?
Os Cherini
Giovani Cherini busca mais um mandato de deputado federal. A esposa, Adri Cherini, estreia na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa.
Giovani Cherini não é apenas candidato à reeleição. Ele também preside o PL no Rio Grande do Sul. A esposa, Adri Cherini, estreia como candidata, mas não é uma desconhecida dentro da estrutura partidária: ela preside o PL Mulher no Estado.
Isso, por si só, não prova qualquer favorecimento. Seria irresponsabilidade afirmar isso sem evidências. Mas mostra algo importante: algumas candidaturas não começam do zero.
Quando existe sobrenome conhecido, presença na direção partidária, estrutura política já montada e uma onda eleitoral forte ao redor da legenda, a candidata pode largar alguns metros à frente de quem ainda precisa construir tudo sozinho.
Se isso vai se transformar em voto, é outra coisa. Mas a possibilidade de aproveitar a estrutura e a força do momento político está claramente colocada.
Pai e filho
Pompeo de Mattos tenta permanecer na Câmara Federal. O filho, Pompeo Filho, busca uma cadeira na Assembleia.
Bibo Nunes tenta novo mandato de deputado federal. A filha, Camila Nunes, disputa pela primeira vez uma vaga estadual.
O mecanismo se repete: um nome consolidado em um espaço e outro tentando ocupar a outra ponta da eleição proporcional.
Casal Alba
Patrícia e Marco Alba já fizeram dobradinha em 2022. Agora, invertem as posições: Patrícia Alba tenta a Câmara Federal e Marco Alba disputa a Assembleia.
Uma demonstração interessante de como o patrimônio eleitoral de uma família pode circular entre diferentes cargos.
Outros
A lista não termina aí.
Luciano e Delegado Zucco são irmãos: um disputa o governo do Estado e o outro tenta a reeleição para deputado estadual.
Edegar Pretto está na chapa ao Piratini, enquanto Adão Pretto Filho busca novo mandato na Assembleia.
Fran e Eliana Bayer também aparecem novamente nas urnas.
Não há nada de ilegal em parentes concorrerem.
Esse nem é o ponto.
O que me interessa é outra coisa:
Numa eleição marcada pela polarização, por sobrenomes conhecidos e por grandes lideranças puxando votos, quanto da escolha ainda é pelo candidato individual e quanto é pela onda em que ele conseguiu entrar?
Frase
“Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.”
Mahatma Gandhi






