O ex-vereador de Roca Sales, Antônio Valesan, recebeu uma condenação de quatro anos, um mês e 15 dias de reclusão pela 1ª Vara Judicial da Comarca de Encantado, após usar a expressão “trabalho de gente branca”, durante uma sessão na Câmara Municipal, em dezembro de 2023. Esta é a notícia que circulou há poucos dias. A juíza Vanessa Azevedo Bento determinou que a frase possui teor preconceituoso explícito, configurando distinção depreciativa baseada em raça e rejeitando a justificativa de mera crítica técnica. Por exercer cargo político e função pública, que potencializa a propagação do discurso discriminatório, o tempo de reclusão foi aumentado. Isto posto, não faço nenhum ajuste, como comentário, na decisão da magistrada. A lei existe, isso é fato. No entendimento da juíza, teve o convencimento de que não se tratou de mera crítica técnica a partir da análise do processo, aplicam-se as penalidades pertinentes ao caso específico. O ex-vereador tem possibilidades de recorrer da sentença.
Cultural
Dentro do que se espera de um país que tem uma ferida na sua estrutura histórica, por quase quatro séculos de escravidão colonial, gerando o que hoje é denominado de racismo estrutural, é um dever diário, não só de quem opera a lei, mas de todos aqueles que não acreditam na naturalização das desigualdades e do preconceito. O tipo de comentário do ex-vereador de Roca Sales, o Pegari, como também é conhecido, não pode ser colocado simplesmente na esteira de uma crítica técnica a um serviço que não obedeceu aos cuidados necessários, porque naturalmente desmonta a crença de que o Brasil vive em harmonia entre raças, ajudando a encobrir e até naturalizando a exclusão contínua de pretos e pardos. Por esse motivo, penso que a decisão da Justiça de Encantado é exemplar.
Recreativo
Tenho certeza de que muitos da minha geração cresceram ouvindo piadas envolvendo pretos e pardos. Talvez até por inocência e, certamente, falta de compreensão, achávamos graça. Muitos desses momentos, juntamente com as próprias vítimas deste humor hostil, que hoje tem o nome de racismo recreativo, eram forçados a aceitar sob risco de serem considerados sem senso de humor. Além de não aceitar “brincadeiras”, que me nego a exemplificar, é preciso combater. Sempre que percebo comentários ou as tais piadas, seja inclusive em rodas de conversas amistosas, contesto ou me levanto, mesmo com a possível pecha de falta de humor, pois, quando toleramos isso, nos tornamos cúmplices.
Fato
Depois desse arrazoado, que faço a respeito do combate ao preconceito, quero também especificar os fatos ocorridos naquela sessão que originou o processo de Valesan, ex-vereador de Roca Sales. Na época do fato, eu estava acompanhando a sessão on-line. Notei a expressão, me chamou a atenção, porém imaginei que tivesse ouvido errado. Era muita ingenuidade para acreditar. Naquela semana, iria comentar na coluna sobre as insistentes viagens dos vereadores daquele mandato a Brasília, sempre às custas do dinheiro público, e uma coincidência recorrente: eram grupos de três ou quatro e permanência de cinco dias, portanto eram cinco diárias, mais passagens, que se justificavam em pequenas emendas parlamentares que, naturalmente, poderiam ser conquistadas via telefone. Logicamente, por tratar do assunto, não me viam com grande simpatia. Fui até adjetivado publicamente pelo próprio vereador durante pronunciamento na tribuna e, a seus olhos, as qualificações não eram tão agradáveis ao meu trabalho jornalístico, mas faz parte do jogo. Revi a gravação e, de fato, o cidadão falou mesmo, passando despercebido até para o presidente, que, na época, era o vereador Paulo Ricardo Gonçalves, primeiro vereador negro eleito em 65 anos daquele Legislativo e que teve a incumbência de ser coordenador adjunto da União dos Vereadores do Brasil na construção de políticas públicas visando ao fortalecimento da categoria afro dentro da UVB. Também comentei o fato na época.
Punição
Como já afirmei anteriormente, não vou referir sobre o veredito da magistrada da Comarca de Encantado. Trata-se de lei e, como havia cargo político, o rigor da lei. Porém, quero fazer uma análise sobre a perspectiva de resultados práticos deste lamentável evento. Como se viu, não teve uma clássica ofensa à raça, tangenciou, pelo comentário impróprio de querer um “serviço de gente branca”. Desta forma, com a punição simplesmente sendo a reclusão de mais de quatro anos, penso que não obterá um resultado pedagógico ao ex-vereador. A punição, nesses casos específicos, deveria obter um aprendizado que pudesse atuar na desconstrução da cultura racista, definido por profissionais que teriam essa capacidade. Tenho a impressão de que a frase desastrada pudesse não conter o racismo analisado, e sim resquícios do que, antes da lei, eram considerados habituais. Sempre é bom lembrar que até na letra do nosso Hino do Rio Grande do Sul se identifica o que hoje seria contestável: “… Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”. Penso que não foi a falta de virtude do povo africano que determinou a condição de escravo. Não contesto a lei, porque ela é importante. Acredito que necessita continuar evoluindo.
Ponte
O Sem Roteiro desta semana tratou da ponte sobre o Rio Guaporé, entre Encantado e Muçum. Além do presidente da AMAT, prefeito de Doutor Ricardo, Álvaro Giacobo, e do presidente da Associação Recupera Muçum, Márcio Delazeri, aqui da região, também participou o presidente da EGR, Luís Fernando Vanacor. Bem oportuna sob o aspecto de entender quais serão os passos para a reconstrução do pilar afetado e a possibilidade de liberação de pessoas e veículos leves antes da conclusão da reforma do pilar. Vale a pena conferir. Está nas redes do Jornal Força do Vale.
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Tentativas
Os prefeitos da região têm se mostrado ativos na busca de uma solução provisória de passagem de pessoas de um lado ao outro do Rio Guaporé. Primeiro foi a balsa, que não foi liberada pela Marinha, por conta de requisitos de segurança. Então, um barco de alumínio foi disponibilizado para o traslado. Mostrou-se insuficiente pela demanda diária. Mais um barco deve iniciar a travessia nesta semana. A novidade até aqui é uma passadeira flutuante, de propriedade da Aegea/Corsan, tipo uma pinguela que se mantém no nível da água. Será experimentada para a travessia. Resta saber como se comporta com relação à correnteza do rio.
Oportunismo
O candidato a deputado federal Jessé Sangalli gravou um vídeo na ponte da ERS-129, interrompida por conta do pilar avariado, dizendo que os prefeitos da região estariam sendo chantageados pelo governo do Estado, condicionando a liberação de recursos para recuperação da ponte ao apoio do seu candidato, que, no caso, seria Gabriel Souza. Mostrei o vídeo durante o programa desta semana e indaguei ao presidente da Associação dos Municípios do Alto Taquari, Álvaro Giacobo, se era verdade. Álvaro desmentiu, disse que, além da inverdade, atrapalha os trabalhos.
Justiça
Nesta semana, a Justiça mandou o vereador de Porto Alegre Jessé Sangalli, candidato a deputado federal, remover o vídeo. Ele não apresentou provas da acusação e, caso descumpra a decisão, Jessé terá que pagar uma multa de R$ 5 mil por dia. A medida foi via liminar e o caso ainda será julgado pelo Tribunal Regional Eleitoral de maneira definitiva.
Alterado
Na semana passada, informei que o vereador Diego Pretto havia se exaltado em dois momentos durante a sessão da Câmara de Encantado. O vereador entrou em contato com este colunista e disse que, no final da sessão, em que o presidente, Leonardo Lorenzi, ergueu a voz, foi em direção à plateia, onde havia uma pessoa que se dirigia a um vereador no plenário, em tom de xingamento. Feito o registro.
Cancelas
Vereadores de Encantado estão preparando uma manifestação para o sábado, 15, às 10 horas, na praça de pedágio, com o lema “Sem Ponte, sem pedágio”. A Justiça já foi provocada, pelo que tenho conhecimento, nesse sentido. O presidente da EGR, Vanacor, durante a entrevista, afirmou que a concessionária não tem como fazer isso por conta. Só não disse com todas as letras, mas deixou no ar que seria uma atribuição da Justiça.
Frase
O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las.
Francis Bacon
Publicado na edição impressa nº 2171, de 13/08/2026.








