Perondi

Nolimar Perondi@nolimarperondi

Informações

Atualizado em 12/10/2026 às 23h468 min de leitura

O vereador Diego Pretto fez quatro pedidos de informações na sessão desta semana da Câmara de Encantado. Os assuntos são bem variados, desde o BTI, produto utilizado no controle de mosquitos, principalmente o conhecido borrachudo. Também fez extenso pedido sobre o tipo, a qualidade e a quantidade de tintas usadas na sinalização viária do município. Uma delas, porém, me causa espécie: quer saber quantas famílias são beneficiárias e quer a relação dos beneficiários do Bolsa Família em Encantado referente a este ano, 2026. Sua justificativa é a de que busca assegurar transparência na aplicação dos recursos. Sim, entenderíamos a preocupação do vereador com relação aos mais necessitados se isso, de fato, estivesse explícito no pedido, mas, como não ficou devidamente assentado na solicitação, me dá a liberdade de imaginar preconceito, perseguição e aporofobia, termo utilizado para definir aversão ou ódio aos pobres.

Seguindo

O pedido do vereador Diego me fez pensar a respeito e, como estava solto, genérico, sem algo muito específico, também me permito imaginar que possa haver relação com esse período eleitoral. Até porque há um candidato a deputado do seu partido, da Serra Gaúcha, que ganhou notoriedade “caçando” beneficiários de programas sociais. E o fez, veja só o oportunismo, depois das eleições municipais. Desta vez, o vereador Pretto quer antes das eleições para governador e presidente.

Favorável

O vereador Diego Pretto, que afirma que doa parte ou todo — não sei bem — de seu salário de vereador para entidades, apoia iniciativas de repasse de recursos para a AME, que trata da recreação das crianças, e também se utiliza das famigeradas emendas impositivas, que distribuem recursos públicos municipais conforme seu gosto pessoal. Agora, quer saber quantos são e onde moram os beneficiários dos programas sociais. É, no mínimo, intrigante. Ou seria discriminatório?

Hipocrisia

Para algumas situações, gosto do termo hipocrisia. Porém, por conta de meu ofício, tenho as palavras como ferramenta de trabalho, e usar um substantivo, mesmo que tenha um caráter depreciativo, para quem só consegue ver o lado mais frágil como problema me parece pouco. Então, vou dedicar a esta pretensão do vereador uma expressão popular: moral de cuecas. Alguém que cobra honestidade e correção dos outros, com autoridade moral, também deveria olhar para os seus, como, por exemplo, o presidente nacional de seu partido, PP, Ciro Nogueira, que está sendo investigado pela Polícia Federal, que aponta que ele recebia R$ 300 mil por mês ao longo de 20 meses, além de benefícios de luxo, com viagens internacionais e despesas pagas em hotéis de luxo, incluindo contas em estação de esqui, pagas pelo banqueiro Daniel Vorcaro em troca de sua atuação parlamentar. Segundo a PF, ele teria instrumentalizado seu mandato para defender interesses do Banco Master no Congresso.

Corrigir

Programas de transferência de renda, num país do tamanho do Brasil, precisam, de fato, de fiscalização séria para não excluir quem tem direito ao benefício e também impedir os aproveitadores. Importante dizer que são as prefeituras que encaminham os pedidos. Se, de fato, acreditasse nesse empenho por parte do vereador, compreenderia melhor suas justificativas, mas, verificando o momento e o alcance do pedido e seu pronunciamento na tribuna, no qual incentivou que as pessoas votem no dia 4 de outubro e, de forma quase visceral, pediu que mostrem “sua opinião ou insatisfação”, sou levado a outra conclusão.

Desta forma, indicaria ao vereador outro substantivo, que denote lógica, nexo, harmonia e conexão entre ideias e fatos: coerência. No popular, encontramos também uma frase apropriada: “O pau que dá em Chico dá em Francisco”.

Reclamou

O vereador Diego Pretto também reclamou que o programa que fiz recentemente no podcast Sem Roteiro, que ocupa as redes sociais do Jornal Força do Vale, com o prefeito Jonas Calvi e o presidente da Câmara de Encantado, Leonardo Lorenzi, para tratar da logística do Vale, não tinha contraponto.

Na verdade, penso que o vereador deve ter ficado indignado porque o prefeito, naquela oportunidade, falou, sem citar nomes, que políticos teriam comemorado o cancelamento do leilão do Bloco 2, relacionado ao pedágio nessa região e às consequentes obras que a região teria. E, como sabemos, o vereador Diego comemorou na tribuna da Câmara, efusivamente, o insucesso do leilão e, por isso, teria entendido o recado.

Sim, de fato, sabemos que o vereador Diego é contra os pedágios. Aliás, todos nós. Porém, sua sugestão como opção de investimento nas rodovias da região tem a profundidade de um pires, se analisarmos o contexto. Não entendo isso como sendo contraponto. Talvez por isso não tenha merecido, naquele dia, o convite.

Pátria

Se não bastasse a dissonância do vereador Diego, que encontra forma positiva apenas no recorte da sua visão de mundo, o vereador Daniel Passaia, na mesma sessão, acabou contribuindo. Fez uma relação da Chama da Pátria, na qual teria representado o Legislativo de Encantado, com as crianças que estavam no evento, no sentido de respeito à Pátria. Mesclou também, de forma generalizada, lutas pela liberdade, criticou o STF, com eco nas primeiras instâncias dos tribunais estaduais, e falou em violações à Constituição já sendo realizadas por juízes nas comarcas por conta do exemplo do STF, sem especificar absolutamente nada.

Esperem, que tem mais. Tratou, nesse mesmo contexto, do aumento da violência, que, no seu entendimento, é uma forma de corrupção. Só então conseguiu a cereja do seu bolo, que tanto procurava encaixar nesse manifesto confuso: citou acontecimentos locais, roubos e furtos que, segundo ele, voltaram a acontecer em Encantado e que seriam reflexo “do que temos no Palácio do Planalto”.

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Difícil, né? Pois é. Enquanto escrevia isso, chegava a ouvir a trilha sonora de The Office, imaginando o escritório da empresa de papel, que tem um gerente excêntrico e sem noção.

Liberdade

Sempre achei que as opiniões, em geral, fossem importantes. Na verdade, são. A liberdade de expressão é um direito fundamental e deve ser protegida, porém tenho notado que essa liberdade pode, em algum momento, estar sendo deturpada. A dignidade humana não permite opinião baseada em preconceito, racismo ou, ainda, na negação dos direitos fundamentais. Também é preciso compreender que discursos de ódio e mentiras perigosas causam violência e dor na vida real, e não apenas divergência de ideias. E proteger os vulneráveis é limitar quem quer silenciar os outros, destruindo o espaço de diálogo.

Existe um conceito chamado paradoxo da tolerância, formulado pelo filósofo liberal Karl Popper, que é muito apropriado: “Se uma sociedade for tolerante sem limites, ela será destruída pelos intolerantes”.

Propósito

Mas seria injusto com a Câmara de Encantado abordar somente assuntos como fiz até agora. A vereadora Aline Ganasini trouxe uma reflexão importante para a sociedade depois daquele trágico acontecimento do assassinato de uma menina: “O que nós podemos fazer enquanto poder público, enquanto comunidade, enquanto sociedade? Nós não conseguimos mudar o que já aconteceu, mas podemos pensar no que precisa ser feito para que outras histórias tenham finais diferentes”.

Muito importante.

Votos

Tenho visto movimentos aqui em Encantado, por parte de empresários e associações, sobre a necessidade de eleger candidatos com ligações estreitas com o Vale do Taquari, tanto estaduais como federais. Acho importante para o próprio futuro do Vale.

Acompanho política há anos e, em todas as campanhas, vejo vereadores, prefeitos e pessoas ligadas aos mais variados partidos comprometendo-se a arrumar votos para candidatos de fora da nossa região. Também é preciso dizer que muitos que foram eleitos com votos da região contribuíram de alguma forma. Não se nega este fato. Porém, é importante lembrar que “a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”.

SOS Habitar

Uma ação voluntária iniciada ainda em maio de 2024, após aquele evento trágico para Encantado, tem neste sábado o seu primeiro resultado. A Associação SOS Habitar estará entregando as chaves de 19 apartamentos prontos, construídos por meio de doações. Existe ainda um segundo bloco de apartamentos, que terá continuidade em sua construção.

É bem importante esse resultado, porque atende a uma necessidade de famílias que não se enquadram nos programas oficiais, mas que também têm limitações para reconstruir o que perderam nas cheias e deslizamentos. Todas as 19 famílias já foram selecionadas e agora terão a oportunidade de se restabelecer, pois poderão permanecer nos imóveis por cinco anos, prorrogáveis por mais cinco.

Fica o reconhecimento a esses abnegados, tanto aos participantes do SOS Habitar como aos doadores, que fizeram sua parte em favor daqueles que precisam.

Frase

Uma mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original

Oliver Holmes

Publicado na edição impressa nº 2173, de 27/08/2026.

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