Página Três

Renira T. Turatti Ost[email protected]

Reféns do lulismo

Para a colunista, o lulismo virou devoção a uma única figura: Lula ou indicados por ele

4 min de leitura

Sinto que, depois desta coluna, serei cancelada por quem venceu no dia 25. Mesmo assim, querido leitor, vou correr esse risco.

Já se vão quase duas semanas e o clima segue o mesmo: parece feriado. Daqueles tristes, de rua quieta e conversa baixa. No meio do caminho teve Finados, e pouca gente notou a diferença. Aqui no Rio Grande do Sul, onde quase seis em cada dez eleitores votaram em Flávio, o que se sente é luto. A psicologia explica parte disso: pesquisas associam votar no candidato derrotado a uma sensação de exclusão e de dor social parecida com a de ser rejeitado por alguém próximo. Mas há algo além, algo de espiritual, como se quase metade do país tivesse ido ao velório de uma esperança e ainda não tivesse voltado para casa. Festa houve, sim, na Paulista. Por aqui, vi pouca.

Mas eu quero é falar de fanatismo. E de quem não concebe que exista no mundo uma régua diferente da sua.

Sem altar

No meu círculo, entre os que votaram em Flávio, ouvi mais críticas ao candidato do que elogios. Sempre foi assim, talvez até mais do que deveria. Quem sabe seja por isso que a direita perde uma eleição presidencial atrás da outra. Falta-nos justamente o que sobra do outro lado: a idolatria dos lulistas, a devoção cega a um líder da canhotada. Conservadores são ideologicamente mais livres do que seus adversários. Mas já nem insisto nisso, porque a vontade de rotular da esquerda é sempre maior do que a sua capacidade de argumentar.

Quem já passou dos 60, como eu, e votou em Flávio, um dia também votou em Collor, em FHC, em Serra, em Alckmin, em Aécio, em Jair. Para essas pessoas não existe político preferido, nome a endeusar, nem família de estimação, por mais que agora tentem nos empurrar essa ideia.

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Eu, particularmente, só não votei em Collor. Em 1989, Brizola disse que era preciso “engolir o sapo barbudo”, e eu engoli: naquela vez, votei em Lula. E o Collor venceu. Ou seja: a cada eleição, um candidato diferente. Sem drama e sem altar.

O lulismo existe

Agora olhe para o outro lado e faça uma análise fria, com lógica. Esquerdistas de cabelos brancos votam em Lula, ou em alguém indicado por ele, há quase 40 anos. O lulismo existe. Tornou-se o nosso peronismo, o nosso chavismo, todo centrado numa única figura. O bolsonarismo, como devoção, não. Então pergunto: é idólatra quem vota em Bolsonaro? E respondo: não, não é.

E qual o problema, afinal, em ter um político de estimação? As urnas mostram que muita gente tem. O problema é ter e jurar que não tem. É o caso dos que enchem a boca, desde 2002, para dizer que não são petistas. Só que Serra não dava para votar. Nem Alckmin. Nem Aécio. Nem Jair. Nem Flávio. Sempre houve uma “desculpa” para votar em Lula. (E vejam a ironia. Não dava o Alckmin, mas como vice do Lula, dá!)

Tarcísio, que já admite pensar em 2030, que vá se preparando: quando chegar a hora, vão descobrir que ele também não dava. Ou você acha mesmo que, contra Lula, essa turma votaria no Tarcísio?

Pronto, falei. Se o preço de dizer isso, e de não ter político de estimação, é ser cancelada, eu pago.

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