No domingo do Dia dos Pais, saímos para passear com nossos filhos. Um daqueles dias bonitos de sol, céu aberto e tempo compartilhado sem grandes pretensões, apenas estarmos juntos. E esses são os momentos mais importantes da vida, onde não estamos tentando chegar a lugar algum, apenas presentes onde estamos.
Em determinado momento paramos à beira do rio, entre o Guaporé e o Taquari, na divisa entre Encantado e Muçum.
Curiosamente eu havia estado naquele mesmo lugar durante a semana, mas de outro jeito. Nos dias anteriores, meu olhar era o de quem buscava alternativas diante da travessia interrompida pelo bloqueio da ponte. Olhava para acessos, distâncias, possibilidades, impactos. Havia preocupação, responsabilidade, perguntas ainda sem respostas e a urgência que os problemas coletivos inevitavelmente carregam.
No domingo, cheguei ao mesmo lugar, em família, e vi outras coisas. Vi a luz do sol refletida na água, a vegetação, as pedras, a imensidão da paisagem. Observei o rio seguindo seu caminho indiferente às nossas preocupações, e pensei sobre como um mesmo lugar pode nos dizer coisas tão diferentes dependendo das lentes com que o enxergamos.
Não estávamos fazendo “turismo de tragédia”; não havia curiosidade diante da destruição ou desejo de transformar sofrimento em espetáculo. Havia conexão com a natureza, com a nossa história e também com a realidade.
Contemplar a beleza naquele momento não significou negar as dificuldades, conseguir enxergar as duas coisas ao mesmo tempo.
Há marcas profundas naquela paisagem e consequências das forças da natureza que ainda interferem na vida das pessoas, na mobilidade, na economia e na rotina de comunidades inteiras. Existe a pontes vulnerável, caminhos interrompidos e muitas soluções que ainda precisam ser construídas.
Mas existe também um rio extraordinariamente belo, existe história, existe vida acontecendo a todo momento, e existe uma paisagem que mesmo transformada, continua carregando identidade e pertencimento.
As devastações podem mudar os contornos de um lugar, mas não conseguem apagar tudo o que ele representa. O rio continua ali e talvez tenha sido ele quem mais me ensinou naquele domingo.
O rio não discute com o caminho. Quando encontra pedras, contorna. Quando encontra estreitamentos, acelera. Quando encontra espaço, se alarga. Em alguns trechos parece quase imóvel e em outros, revela toda a sua força.
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A vida também é feita desses movimentos. Nem sempre conseguimos atravessar pela ponte que planejávamos. Às vezes, justamente aquela passagem que parecia segura deixa de estar disponível e então somos obrigados a procurar outros caminhos, rever rotas, esperar, construir alternativas.
Isso vale para estradas e vale para a vida. Talvez por isso aquela parada tenha me tocado tanto.
No meio de uma semana marcada pela busca de soluções para um problema concreto, o domingo me lembrou daquilo que nenhuma solução técnica pode substituir: as pessoas pelas quais fazemos tudo isso. A família, os afetos, a presença, e o privilégio de ainda termos com quem dividir um domingo de sol, uma conversa, uma paisagem, um silêncio à beira do rio.
Passei boa parte da minha vida tentando organizar o mundo ao meu redor, resolvendo problemas, cumprindo responsabilidades. Tudo isso importa, mas existe uma dimensão da vida que não pode ser medida pela quantidade de coisas que conseguimos resolver. Ela é medida pela qualidade da nossa presença enquanto a vida acontece.
E está aí uma das certezas que aquele domingo reforçou em mim: o amor também é uma lente. Não uma lente ingênua, que transforma dificuldades em coisas bonitas ou nos impede de reconhecer a realidade, ao contrário, o amor nos permite enxergar o mundo inteiro com suas dores e suas possibilidades.
Quando colocamos amor nas nossas lentes, uma paisagem marcada pela destruição também pode falar de resistência, uma ponte interrompida pode nos fazer pensar sobre novos caminhos e necessidades, um rio que tantas vezes nos assustou pode continuar sendo admirado por sua beleza, e um simples passeio pode se transformar em memória afetiva.
Não escolhemos tudo aquilo que a vida colocará diante dos nossos olhos. Existem acontecimentos que modificam nossas paisagens sem pedir licença. Há perdas, interrupções, mudanças de rota e correntezas maiores do que imaginávamos enfrentar, mas ainda assim, temos a possibilidade de escolher, ao menos em parte, as lentes com que continuaremos olhando para aquilo que ficou.
Naquele domingo, diante dos rios Guaporé e Taquari, cercada pela minha família, pensei que quero continuar escolhendo lentes capazes de reconhecer as dificuldades sem perder a capacidade de encontrar beleza. Lentes que não neguem as cicatrizes, mas também não reduzam a história a elas. Lentes que procurem caminhos quando uma ponte não puder ser atravessada, e sobretudo, lentes onde haja amor suficiente para perceber que, mesmo quando a paisagem muda, ainda existe muito pelo que agradecer, cuidar, construir e viver, porque assim como o rio, a vida também segue, e cabe a nós a grande escolha em decidir como queremos atravessá-la e com quais olhos queremos enxergar o caminho.
Publicado na edição impressa nº 2171, de 13/08/2026.










