O Dia de Finados sempre me pareceu uma data triste. Talvez pelo silêncio dos cemitérios, pelas flores depositadas sobre os túmulos, pelos nomes gravados nas lápides e pelas lembranças que insistem em nos visitar. Há uma melancolia quase inevitável nesse encontro com a ausência.
Mas não é sobre a tristeza que desejo refletir. É sobre a vida.
Talvez este seja um dos grandes paradoxos da nossa existência: precisamos reconhecer que ela termina para compreender melhor o valor de tudo aquilo que acontece antes.
Há uma frase atribuída ao filósofo romano Cícero que considero uma das mais belas reflexões sobre nossa passagem pelo mundo:
“Certifica-te de que és fator de soma para as pessoas de cujas vidas participas.”
É uma ideia simples, mas de uma profundidade extraordinária. Afinal, não basta atravessar a existência. Há também uma responsabilidade na maneira como participamos da vida dos outros.
E é pensando nisso que imagino uma conversa com a morte.
Quando ela vier me buscar, gostaria de pedir que se sentasse um pouco. Talvez lhe oferecesse um café. Não para negociar mais alguns anos, nem para implorar por um tempo que já não me pertence. Apenas para conversar.
Quero lhe contar minha história.
Não uma biografia de realizações, conquistas ou feitos extraordinários. Quero falar das experiências que vivi, das pessoas que conheci, dos lugares por onde passei e de tudo aquilo que, de alguma maneira, ajudou a construir quem sou.
Contaria sobre os dias felizes. Sobre a alegria de ser pai, de acompanhar, na medida do possível, o crescimento das minhas filhas, de descobrir que o amor também amadurece quando aprendemos a cuidar sem pretender controlar. Falaria das amizades, dos encontros inesperados, das conversas que me fizeram pensar e daquelas pessoas que, mesmo sem saber, deixaram alguma coisa bonita em mim.
Mas não esconderia as dificuldades.
Houve perdas, decepções, caminhos interrompidos. Houve momentos em que a esperança pareceu distante e outros em que voltei a me encantar com a vida quando já não imaginava que isso fosse possível.
— E você foi feliz? — talvez ela me perguntasse.
Eu precisaria pensar antes de responder.
— Muitas vezes. Em outras, nem tanto. Mas seria injusto com a vida permitir que as tristezas ocupassem o lugar de tudo aquilo que foi bom.
Lembraria, então, de uma passagem de Giz, da Legião Urbana, na qual Renato Russo canta:
“E, pra ser honesto, só um pouquinho infeliz.”
E depois vem aquele “Mas tudo bem”, repetido quase como uma maneira de continuar vivendo, apesar daquilo que nos falta.
Talvez seja isso. A felicidade não é uma condição permanente, nem uma existência sem frustrações. É possível carregar saudades, perguntas sem respostas e algumas tristezas sem perder a capacidade de reconhecer a beleza do que ainda temos.
— E você compreendeu a vida? — insistiria a morte.
— Não inteiramente. E desconfio que ninguém consiga.
Continuo com muitas perguntas. Algumas nasceram das minhas escolhas, outras das circunstâncias. Nem sempre soube interpretar as pessoas ou compreender os acontecimentos. Algumas experiências me deram respostas; outras apenas ampliaram minhas dúvidas.
Mas nunca considerei necessário compreender tudo para continuar vivendo.
A razão é indispensável, mas há experiências humanas que não cabem inteiramente nas explicações que construímos. O amor, a saudade, o encantamento e a própria consciência da finitude pertencem também a esse território.
Talvez, depois de ouvir minhas histórias, a morte me fizesse uma pergunta mais difícil:
— E você foi uma boa pessoa?
Essa, sim, exigiria algum silêncio.
Não gostaria de responder com a segurança de quem acredita ter acertado sempre. Seria uma injustiça com aqueles que eventualmente magoei, com as palavras que poderia ter escolhido melhor e com as ocasiões em que não estive à altura daquilo que eu mesmo defendia.
— Eu tentei — responderia.
Tentei ser um bom pai. Não apenas oferecer proteção às minhas filhas, mas ajudá-las a compreender que a liberdade, a dignidade e o respeito pelos outros são valores que precisam acompanhar nossas escolhas.
Mas gostaria de acreditar que minha contribuição não terminou nas relações familiares.
Que, nos caminhos da profissão, nas conversas, nas amizades, nos encontros e desencontros, tenha conseguido oferecer alguma coisa além da minha simples presença.
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Que meu trabalho tenha contribuído para informar, provocar reflexões e ampliar a compreensão sobre o mundo. Que minhas palavras tenham servido mais para construir do que para ferir. Que eu tenha sido capaz de ouvir quem pensava diferente, de reconhecer os próprios equívocos e de defender aquilo que considerava justo, mesmo quando não era conveniente.
Não desejo apresentar à morte um inventário de virtudes. Tenho consciência das minhas imperfeições.
Mas gostaria de dizer que procurei ser útil.
Não útil apenas no sentido prático, de realizar tarefas ou cumprir obrigações. Útil na dimensão humana, naquela em que nossa existência acrescenta alguma coisa à vida de outra pessoa.
E talvez seja justamente aí que a reflexão atribuída a Cícero encontre seu significado mais profundo.
Ser fator de soma não exige grandes realizações. Às vezes, significa uma palavra de incentivo, uma atitude de solidariedade, a disposição de escutar ou a coragem de não permanecer indiferente diante do sofrimento alheio.
Não sabemos exatamente o que deixamos na vida das pessoas. Há gestos dos quais nos orgulhamos que talvez tenham sido esquecidos. E outros, aparentemente insignificantes, que podem ter acompanhado alguém durante muitos anos.
— Então você acredita que contribuiu? — perguntaria a morte.
— Quero acreditar que sim. Mas não cabe apenas a mim responder.
Talvez essa seja uma das formas mais honestas de avaliar uma existência: reconhecer que não somos os únicos autores da nossa própria história. Também somos aquilo que deixamos na memória, na sensibilidade e na experiência daqueles com quem convivemos.
Os antigos estoicos recomendavam lembrar da morte não para alimentar o medo, mas para despertar a consciência da vida. Memento mori: lembra-te de que morrerás.
Não como uma ameaça, mas como um convite.
Um convite para não adiar indefinidamente os afetos, para não transformar pequenas divergências em grandes distâncias, para reconhecer a importância dos encontros e compreender que o tempo não é uma propriedade nossa.
A morte não precisa ser nossa inimiga para que desejemos viver. Tampouco precisamos romantizá-la. A ausência de quem amamos dói, e nenhuma reflexão filosófica elimina inteiramente essa dor.
Mas a consciência de que somos passageiros pode nos tornar mais atentos àquilo que permanece enquanto estamos aqui.
Por isso, neste Dia de Finados, penso que a melhor homenagem aos que partiram talvez não esteja apenas nas flores que depositamos sobre seus túmulos.
Está também na maneira como cuidamos dos que continuam ao nosso lado.
Na presença que oferecemos, no respeito que demonstramos, na coragem de amar e na disposição de contribuir para que a vida seja um pouco melhor do que a encontramos.
Imagino, então, que a morte termine seu café e se levante.
— Precisamos ir — ela diria.
Talvez eu ainda quisesse contar outra história, lembrar mais um encontro, falar de um sonho que permaneceu inacabado. Afinal, sempre haverá alguma coisa que gostaríamos de continuar vivendo.
Mas espero que, naquele instante, não precise inventar uma vida diferente daquela que tive.
Que possa reconhecer minhas alegrias sem exagerá-las, admitir minhas tristezas sem transformá-las em derrota e aceitar que algumas perguntas permanecerão sem resposta.
Sobretudo, gostaria de olhar para minha passagem pelo mundo e dizer:
— Não sei se fui tão bom quanto gostaria. Nem se consegui ser tão útil quanto poderia. Mas tentei. Tentei fazer da minha existência uma presença que acrescentasse alguma coisa à vida das minhas filhas e também à vida daqueles que encontrei pelo caminho.
Talvez a morte permaneça em silêncio. Talvez não tenha respostas para oferecer.
E, antes de lhe estender a mão, eu ainda gostaria de fazer uma última pergunta:
— De tudo o que vivi, será que consegui deixar alguma coisa boa?
Talvez ela responda:
— Essa pergunta não cabe a mim. Pertence àqueles que ficam.
E então compreenderei que não é a morte quem deve avaliar o valor da nossa existência. Essa responsabilidade começa muito antes de sua chegada, em cada escolha, em cada encontro e na maneira como participamos da vida.
Não espero chegar ao fim com todas as respostas. Nem com a pretensão de ter vivido sem erros.
Espero apenas que, quando a morte vier me buscar, que me encontre vivo.









