Há comunicadores que entram na nossa rotina. Outros acabam virando parte dela. Guerrinha foi assim para muita gente que cresceu ouvindo o rádio gaúcho: presença diária, opinião forte e uma tirada pronta para transformar qualquer assunto em conversa de família.
Adroaldo Guerra Filho nos deixa aos 70 anos, mas seu jeito único de comunicar continuará ecoando por muito tempo. Guerrinha não apenas comentava futebol. Com sarcasmo, espontaneidade e uma genialidade rara para encontrar as palavras certas, ajudou a mudar a forma de falar sobre esporte — e, muitas vezes, sobre qualquer outro assunto.
Eu gostava muito de ouvi-lo. Suas sacadas eram imprevisíveis, e havia nele uma liberdade que poucos comunicadores conquistam: falava o que pensava, do jeito que pensava, sem perder o humor e a inteligência. Era capaz de criticar com dureza e, na frase seguinte, arrancar um sorriso. Suas pérolas viraram parte da memória do rádio gaúcho.
Colorado identificado, como eu, Guerrinha também sofreu com os últimos anos do Inter. Mas até nos momentos mais difíceis encontrava um jeito próprio de analisar a partida: havia ali o olhar do comentarista, atento ao jogo, e também o sentimento do torcedor, que vivia cada resultado. Talvez por isso tanta gente se identificasse com ele. Guerrinha parecia aquele tio brincalhão da família — sempre com uma história, uma opinião e uma resposta na ponta da língua —, mas também alguém muito atento ao que acontecia ao seu redor.
Com a internet e as transmissões ao vivo, ainda mais pessoas puderam conhecer esse jeito Guerrinha de se comunicar. Quem já o acompanhava encontrou novas ocasiões para ouvi-lo; quem ainda não conhecia pôde descobrir suas opiniões, seus bordões e sua personalidade inconfundível.
O jornalismo gaúcho perde um de seus grandes personagens. Eu perco uma voz que gostava de ouvir. Que Guerrinha descanse em paz. Seu humor, suas frases e a marca que deixou na comunicação seguirão vivos na lembrança de todos que aprenderam a esperar pela próxima sacada.









