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Casos de TDAH em adultos disparam no mundo e preocupam especialistas
Estudos mostram alta nos diagnósticos em países como Alemanha e EUA. Psiquiatras apontam mais consciência, mas também alertam para autodiagnóstico nas redes sociais.

O diagnóstico de TDAH em adultos mais que dobrou na última década em vários países, impulsionado por maior conscientização, mudanças nos critérios clínicos e impacto da pandemia. Especialistas, no entanto, alertam para riscos de diagnósticos apressados e influência de redes sociais como o TikTok.
Alta nos diagnósticos e mudança de perfil
Tradicionalmente associado à infância, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) tem sido cada vez mais reconhecido em adultos. Na Alemanha, a taxa de diagnósticos subiu de 8,6 para 25,7 por 10 mil pessoas entre 2015 e 2024. Nos Estados Unidos, o número de adultos com o transtorno mais que dobrou nas últimas duas décadas.
A psiquiatra Swantje Matthies, do Hospital Universitário de Freiburg, confirma a tendência:
“O TDAH em adultos está sendo diagnosticado com muito mais frequência nos últimos dez anos. Em muitos casos, trata-se de pessoas que nunca haviam recebido o diagnóstico antes.”
Causas possíveis: mais atenção, menos tabu
Entre os fatores que explicam esse aumento estão:
•Maior conhecimento sobre o transtorno
•Mudanças nos critérios diagnósticos
•Impacto da pandemia na saúde mental
•Busca por tratamento após frustrações anteriores
O transtorno tem origem genética e manifesta sintomas desde a infância, mas frequentemente passa despercebido, especialmente em mulheres, que tendem a apresentar sinais mais sutis, como desatenção ou sonhar acordado, em vez de hiperatividade.
Diagnóstico exige cautela e histórico completo
O processo de diagnóstico em adultos é complexo e envolve entrevistas, questionários e reconstrução da história de vida. É necessário confirmar a presença de sintomas antes dos 12 anos e descartar outros transtornos mentais com sintomas semelhantes.
Boletins escolares e relatos antigos podem ajudar no processo, mas o diagnóstico exige preparo técnico. Psiquiatras alertam para superdiagnóstico e autodiagnóstico impreciso, especialmente com a proliferação de vídeos nas redes sociais.
“Há muito conteúdo impreciso e exagerado circulando. Informação é importante, mas precisa ser confiável”, alerta Matthies.
Redes sociais impulsionam visibilidade (e confusão)
Vídeos populares no TikTok e outras plataformas frequentemente descrevem sintomas genéricos, como falta de foco, esquecimentos e inquietação, o que pode gerar identificação indevida com o transtorno.
Ainda assim, especialistas reconhecem que a exposição também quebra tabus, facilita o acesso a tratamentos e promove o debate público.
Viver com TDAH: obstáculo e potência
Para muitos adultos, o diagnóstico tardio é um divisor de águas. Foi o caso de Mara, que só recebeu o diagnóstico após episódios de depressão e falhas em tratamentos anteriores. Com o diagnóstico, começou terapia e medicação, e conseguiu reorganizar a vida.
“Percebi que não era falta de esforço. Minha cabeça funciona diferente”, diz.
Apesar dos desafios com foco, rotina e organização, Mara valoriza os pontos fortes do TDAH, como entusiasmo, hiperfoco e conexões criativas. Ainda assim, reconhece que a sociedade precisa de mais ambientes inclusivos.
Caminhos para uma sociedade mais preparada
Para especialistas, os números em alta mostram também uma demanda por adaptação social. Ambientes mais calmos, flexíveis e com menor carga sensorial podem beneficiar não só pessoas com TDAH, mas todos os trabalhadores.
“Muitos não se encaixam em modelos rígidos. Precisamos de espaços onde os pontos fortes do TDAH sejam bem aproveitados”, conclui Matthies.






