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RS é o 4º Estado com mais denúncias de crimes contra idosos

A violência contra a pessoa idosa é um dos fenômenos mais complexos e silenciosos da sociedade brasileira. Embora muitas vezes associada apenas a agressões físicas, ela assume múltiplas formas — financeiras, psicológicas, institucionais e de abandono. Na maioria dos casos, acontece longe dos olhos do poder público, dentro de casa ou em ambientes que deveriam ser de cuidado.

No Rio Grande do Sul, Estado que envelhece mais rapidamente do que a média nacional, o problema ganha contornos ainda mais preocupantes. Dados do Painel da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos colocam o RS em quarto lugar entre as unidades da federação com maior número de denúncias de violência contra pessoas idosas.

Registros de 2025

  • 69.606 violações de direitos contra pessoas idosas no RS
  • 11.562 denúncias de crimes envolvendo vítimas com 60 anos ou mais

É importante diferenciar os conceitos:

  • Violação — qualquer fato que atente contra os direitos humanos da pessoa idosa, como maus-tratos, negligência, exploração financeira, violência psicológica, abandono ou violência institucional.
  • Denúncia — registro formal de um crime, que pode ou não gerar investigação policial, dependendo da materialidade e das provas.

Cidades com mais registros

  • Porto Alegre: 9.883 violações e 1.714 denúncias
  • Caxias do Sul: 4.079 violações e 655 denúncias
  • Gravataí: 2.695 violações e 463 denúncias
  • Pelotas: 2.691 violações e 463 denúncias
  • Canoas: 2.323 violações e 375 denúncias

Violência familiar e fatores de risco

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), cerca de 60% dos casos de violência contra idosos acontecem no ambiente familiar. Em dois terços das situações, os agressores são filhos — mais frequentemente homens — seguidos por noras, genros e cônjuges. O consumo de álcool e drogas e a dependência financeira de familiares também são fatores recorrentes.

Crescimento dos casos com o envelhecimento

Para a Polícia Civil, há uma relação direta entre a maior longevidade da população e a expansão das formas de violência. Crimes financeiros, especialmente os ligados ao ambiente digital, como estelionato e golpes, têm se destacado em registros diários nas delegacias.

A delegada titular da Delegacia de Proteção ao Idoso do RS, Ana Luiza Caruso, explica que a violência cresce na mesma proporção do envelhecimento da sociedade, atingindo pessoas de diferentes perfis socioeconômicos e classes sociais.

Principais tipos de violência

  • Estelionato e violência financeira
  • Maus-tratos físicos e psicológicos
  • Abandono
  • Práticas cotidianas de violação de direitos (retenção de cartão, apropriação de renda ou coação para empréstimos)

Desafios para denunciar

Um dos maiores desafios é o silêncio das próprias vítimas. O vínculo afetivo com o agressor, muitas vezes um familiar próximo, funciona como um bloqueio à denúncia. Muitos idosos preferem suportar a violência para manter a convivência familiar ou por medo de consequências legais para seus parentes.

Sinais de alerta

Mudanças sutis de comportamento e rotina podem indicar abuso:

  • Isolamento repentino
  • Mudança brusca de humor ou personalidade
  • Redução de contatos sociais
  • Lesões frequentes sem explicação
  • Medo excessivo ao falar de dinheiro ou de certos familiares
  • Uso inadequado de medicamentos
  • Sinais de negligência, como má higiene ou roupas sujas

Violência em lares geriátricos

Embora a maioria dos casos aconteça em ambiente doméstico, denúncias envolvendo instituições de longa permanência para idosos também exigem atenção. A fiscalização informal, como visitas regulares da família, é considerada fator decisivo de proteção.

Papel da Defensoria Pública

A Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul atua na proteção jurídica da pessoa idosa, lidando com conflitos familiares, abandono e abusos patrimoniais que nem sempre chegam ao sistema penal, mas têm impacto profundo na vida das vítimas. A defensora pública Bibiana Veríssimo Bernardes destaca que a violência contra idosos é multifacetada e requer atenção ampla, não apenas física.

Medidas protetivas

Em situações de risco imediato, o Estatuto do Idoso prevê a concessão de medidas protetivas, incluindo o afastamento do agressor. Entretanto, entraves práticos dificultam a efetivação dessas ações, pois muitos idosos não querem que familiares sejam responsabilizados criminalmente.

Falta de estrutura pública

Apesar de uma legislação avançada, a assistência ainda é insuficiente diante do crescimento da população idosa. Entre os principais gargalos estão:

  • Poucas instituições públicas de longa permanência
  • Falta de centros-dia especializados
  • Insuficiência de apoio a cuidadores familiares
  • Escassez de políticas de convivência e socialização
  • Ausência de varas judiciais especializadas

Violência: responsabilidade coletiva

Combater a violência contra a pessoa idosa é uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado. A fiscalização social, a visita, a denúncia e a informação são essenciais para proteger os direitos humanos dessa população.

Como denunciar e buscar ajuda

Qualquer pessoa pode denunciar situações de violência contra idosos, inclusive de forma anônima. Alguns dos principais canais de apoio são:

  • Disque 100 — Direitos Humanos (24h)
  • Polícia Civil — telefone 197 ou WhatsApp (51) 98444-0606
  • Delegacia de Proteção ao Idoso — Avenida Ipiranga, 1.803, Santana
  • Defensoria Pública do Estado do RS — orientação jurídica e medidas protetivas
  • CRAS e CREAS — apoio social e acompanhamento familiar
  • Vigilância Sanitária — denúncias em instituições de longa permanência
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