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Além da tática: a paixão que move o futebol amador

No Dia do Treinador de Futebol, as trajetórias de Sedenir Marques e Cláudio Vígolo revelam o que está em jogo na casamata: entre a pressão do resultado e a gestão de egos, eles conciliam trabalho, família e uma coleção de títulos que moldou o futebol do Vale do Taquari.

No futebol profissional, o treinador é uma figura blindada, cercada por assessores, amparada por estatísticas avançadas e focada quase exclusivamente na tática. No futebol amador do Vale do Taquari, a realidade do “professor” exige um conjunto de habilidades muito mais humano do que técnico. É preciso ser psicólogo, gestor de crise, pai, irmão e, acima de tudo, um apaixonado.

Neste Dia do Treinador de Futebol, celebramos a figura daqueles que, faça chuva ou sol, estão à beira do gramado comandando as paixões locais. Para entender o que passa na cabeça de quem comanda o espetáculo na várzea, a reportagem ouviu dois nomes experientes e vitoriosos da região: Sedenir João Marques, o popular “Tigrinho” (53 anos), de Encantado, e Cláudio José Vígolo (51 anos), de Roca Sales.

Embora tenham trajetórias distintas, ambos concordam em um ponto crucial: no amador, a tática importa, mas é o fator humano que levanta taças.

Da lesão à glória: a escola de Cláudio Vígolo

Para Cláudio Vígolo, a prancheta não foi uma escolha inicial, mas um destino. Sua trajetória começou há 18 anos, em 2006, após uma lesão no joelho encerrar sua fase como jogador. Sem conseguir abandonar o ambiente do vestiário, aceitou ser auxiliar técnico do Botafogo de Roca Sales. A transição foi rápida: já em 2007, assumiu como treinador principal e conduziu o time ao título de Campeão Municipal Invicto.

Com a sinceridade de quem conhece o barro da várzea, Vígolo define sua função de forma inusitada: “Costumo dizer que somos mais ‘entregadores de camisa’ do que treinadores, pois não há tempo para treinar como no profissional. Precisamos de atletas inteligentes, que tenham leitura de jogo”.

Essa filosofia rendeu momentos históricos. Após o vice-campeonato em 2008, Cláudio viveu um dos episódios mais marcantes de sua carreira: a contratação de Volnei Caio para o Botafogo da Constância. “Ele vinha do profissional e foi preciso regularizar toda a situação para que pudesse atuar no amador. Foi um episódio que marcou minha trajetória”, relembra.

Inspirado na capacidade de Felipão de “fazer muito com pouco”, Cláudio acredita que o treinador é um herói da comunidade, alguém que muitas vezes sacrifica o tempo com a família — sua prioridade absoluta — para oportunizar atletas.

A disciplina serena de “Tigrinho”

Enquanto Cláudio nasceu da superação de uma lesão, Sedenir João Marques, o Tigrinho, foi forjado na evolução natural da confiança. Começou comandando times em jogos de sábado à tarde em 2015 e, a partir de 2017, entrou de cabeça nos campeonatos municipais. Seu estilo, espelhado na elegância de Tite, busca ser o alicerce emocional do time. “Em dia de jogo decisivo, é um turbilhão de pensamentos. Mas o treinador precisa manter a calma para tomar decisões”, ensina Tigrinho.

Para ele, o técnico deve ser exemplo de disciplina e comprometimento. Essa postura foi recompensada com uma cena inesquecível em 2019: após conquistar o título Municipal de Encantado com o Cruzeiro de Lajeadinho, Tigrinho foi erguido nos braços pelos atletas. “Aquele reconhecimento da diretoria e do grupo tornou o dia inesquecível”, conta emocionado.

Sedenir reforça que o futebol cria uma “segunda família”, exigindo um equilíbrio delicado com a vida profissional e pessoal para manter a sanidade e o foco nas vitórias.

Um nível cada vez mais alto

Ambos os treinadores são testemunhas de uma transformação no Vale do Taquari. Eles relatam que a “régua subiu”. “O nível aumentou bastante, principalmente pelos investimentos dos clubes em ex-profissionais e atletas de fora”, avalia Cláudio.

Tigrinho concorda, vendo equipes cada vez mais organizadas taticamente e elencos qualificados. Neste cenário de alta competitividade, Sedenir e Cláudio permanecem firmes. Seja o “entregador de camisas” multicampeão de Roca Sales ou o estrategista sereno de Encantado, ambos personificam a mensagem deixada para este dia especial: “Que nosso trabalho seja reconhecido e que continuemos plantando sementes”.

No final das contas, as trajetórias de Tigrinho e Vígolo provam que, mesmo sem os holofotes da TV, o futebol amador é feito de histórias gigantes.

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