
Em entrevista ao Jornal Força do Vale, a ginecologista e obstetra Dra. Ângela Nichel Garcia alertou para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de colo do útero, uma das doenças que ainda atinge milhares de mulheres no país. O câncer de colo do útero está entre os tumores mais frequentes entre as brasileiras. A estimativa é de 15,38 casos para cada 100 mil mulheres por ano. No Rio Grande do Sul, a doença aparece como o quarto tipo de câncer mais comum entre a população feminina, sendo o segundo mais frequente nas regiões Norte e Nordeste do país. Segundo a médica, praticamente todos os casos estão relacionados à infecção pelo HPV (papilomavírus humano), vírus transmitido principalmente por via sexual. Nem toda infecção evolui para câncer, mas toda lesão tumoral tem origem em uma infecção por tipos oncogênicos do HPV. Vacinação é a principal forma de prevenção A prevenção primária ocorre por meio da vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente na rede pública para meninas e meninos entre 9 a 14 anos. Nessa faixa etária, são aplicadas duas doses, capazes de garantir proteção contra os principais tipos do vírus associados ao câncer. Após essa idade, a vacinação ainda pode ser realizada, porém com três doses. O ideal é que a imunização ocorra antes do início da vida sexual, embora mulheres fora desses critérios também possam obter benefícios com a vacina. Rastreamento permite identificar lesões precoces Além da vacinação, a prevenção também depende do rastreamento por exames ginecológicos. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda o exame citopatológico, conhecido como preventivo ou Papanicolau, para mulheres entre 25 a 64 anos. Quando o resultado é normal, a orientação oficial é repetir o exame a cada dois anos. Em casos de alteração, a paciente pode ser encaminhada para colposcopia, exame que permite visualizar o colo do útero com maior precisão e realizar biópsia quando necessário. A médica ressalta, no entanto, que a avaliação ginecológica anual continua sendo recomendada, independentemente dos intervalos previstos nos protocolos. Onde surgem as lesões As alterações que podem evoluir para câncer começam de forma microscópica nas células do colo do útero. Essas lesões podem surgir na ectocérvice, parte externa do colo do útero visível durante o exame ginecológico. Nessa região, a colposcopia permite identificar áreas alteradas e realizar biópsias. Já quando as alterações ocorrem na endocérvice, área interna do canal do colo do útero, o diagnóstico pode ser mais desafiador, sendo muitas vezes identificado por meio da coleta de material no exame citopatológico. Entre as alterações consideradas precursoras estão as classificadas como NIC 2 e NIC 3, que ainda não representam câncer, mas podem evoluir para a doença caso não sejam tratadas. Quando identificadas, essas lesões podem ser removidas, interrompendo a progressão do tumor. Doença pode evoluir sem sintomas Um dos principais desafios no combate ao câncer de colo do útero é que as lesões precursoras não apresentam sintomas. Em estágios mais avançados podem surgir sinais como sangramento sem causa aparente, sangramento durante a relação sexual, secreção com odor forte ou dor pélvica. Mesmo assim, esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas indicam a necessidade de avaliação médica. Novas diretrizes incluem teste para HPV As novas diretrizes brasileiras para rastreamento do câncer de colo do útero passaram a incluir testes moleculares para detecção do DNA do HPV oncogênico. O exame pode ser indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e é coletado de forma semelhante ao citopatológico. O objetivo é ampliar o rastreamento e direcionar melhor quais pacientes precisam de exames complementares, como citologia, colposcopia ou biópsia. Entre as orientações previstas: HPV negativo: repetir o exame em cinco anos; HPV positivo (não tipos 16 ou 18): realizar citopatológico e repetir o teste em um ano se estiver normal; HPV positivo tipos 16 ou 18: realizar citopatológico e colposcopia. Resposta ao vírus varia entre as mulheres A medicina ainda busca compreender por que algumas mulheres eliminam a infecção pelo HPV sem desenvolver lesões, enquanto outras apresentam evolução mais rápida da doença. Fatores como genética, imunidade individual e hábitos de vida podem influenciar esse comportamento. Por isso, segundo a médica, o principal desafio continua sendo identificar as lesões precursoras antes que evoluam para câncer, por meio da vacinação, exames regulares e acompanhamento ginecológico.






