“Parece que aprendemos com 2023 e 2024”

Evanilson Moraes, responsável pela página Enchentes no Vale do Taquari, gravou depoimento na segunda-feira, 31 de agosto, falando sobre a previsão de cheia que não se confirmou aqui no Vale do Taquari. Disse que modelos indicavam cenário preocupante e considera acertada a mobilização antecipada das autoridades
Após dias de apreensão diante da previsão de chuva volumosa e possibilidade de uma nova enchente no Vale do Taquari, o cenário mais preocupante acabou não se confirmando. Para Evanilson Moraes, estudioso do tempo e responsável pela página Enchente no Vale do Taquari, que reúne mais de 33 mil seguidores no Instagram, o fato de o evento previsto não ter ocorrido deve ser encarado com alívio, e não como motivo para críticas às medidas de prevenção adotadas na região.
Em uma análise publicada nesta terça-feira (1º), Moraes explicou que os modelos meteorológicos utilizados para prever o comportamento da atmosfera são ferramentas altamente avançadas, desenvolvidas e administradas por centros meteorológicos de países como Alemanha, Canadá e Estados Unidos, além da União Europeia.
Segundo ele, os sistemas realizam milhões de cálculos a partir de informações atmosféricas e projetam diferentes cenários futuros. Apesar do alto nível tecnológico, as previsões estão sujeitas a mudanças.
“Não existe nada mais avançado do que isso neste momento. São as melhores ferramentas das quais nós dispomos. E elas erram. Às vezes elas erram. E, dessa vez, erraram de uma maneira positiva para nós”, afirmou.
Durante vários dias, os modelos indicavam volumes elevados de chuva nas cabeceiras da Bacia do Taquari-Antas, condição que poderia provocar uma enchente de maiores proporções. Com as atualizações, entretanto, grande parte da precipitação prevista acabou se deslocando principalmente para Santa Catarina.
Evanilson lembrou que alterações nos modelos também podem ocorrer no sentido contrário. Como exemplo, citou uma das enchentes registradas em julho, quando as projeções inicialmente não apontavam risco significativo, mas mudaram poucas horas depois, colocando chuva volumosa sobre as cabeceiras da bacia e resultando na elevação dos rios.
Para o estudioso, justamente por essa imprevisibilidade, as autoridades precisam trabalhar com antecedência.
“Às vezes as mudanças são positivas para nós, às vezes são negativas. O que nós não podemos fazer é criticar a Defesa Civil por ter tomado precauções antes da chuva começar a cair”, destacou.
“Foi um grande acerto”
Na avaliação de Moraes, a mobilização realizada pelas Defesas Civis e administrações municipais diante das projeções disponíveis foi correta.
Ele observa que, durante vários dias, diferentes modelos apontaram um cenário potencialmente grave para o Vale do Taquari. Com base nessas informações, municípios organizaram equipes, emitiram alertas e adotaram medidas preventivas.
“Tudo indicava, todos os dados, as melhores ferramentas das quais nós dispomos indicavam que nós teríamos uma enchente que possivelmente seria grande no Vale do Taquari. Baseadas nesses dados, as autoridades tomaram decisões e foram se organizando para um cenário negativo”, explicou.
Moraes lamentou as críticas e manifestações de deboche direcionadas a autoridades após a enchente não ocorrer.
“Falando em termos de Defesa Civil e meteorologia, eu acho que foi um grande acerto essa tomada de decisões antecipada”, avaliou.
Exemplo do Japão
Para exemplificar, ele comparou a situação aos alertas de tsunami emitidos no Japão após terremotos no fundo do oceano. Na maior parte das vezes, segundo observa, o fenômeno não acontece, mas isso não torna os alertas desnecessários.
“Imagina que absurdo reclamar de um tsunami que não aconteceu. Que bom que não aconteceu”, comparou.
Antecipação pode salvar vidas
Outro ponto destacado por Moraes é que esperar a chuva começar ou o rio apresentar elevação significativa antes de tomar providências pode reduzir o tempo disponível para proteger moradores, retirar famílias de áreas vulneráveis ou organizar estruturas municipais.
“Acompanhar e ver o que vai acontecendo pode não dar tempo para agir com a devida qualidade. Se você fica esperando para ver o que acontece e a enchente vem muito rapidamente, a gente sabe quais são as consequências”, alertou.
O estudioso também ressaltou que os modelos meteorológicos não erraram completamente. Com as atualizações, a área de maior precipitação prevista passou para Santa Catarina, onde foram registrados acumulados superiores a 200 milímetros em algumas localidades.
Para Moraes, a situação reforça que a previsão inicial de um episódio severo tinha fundamento, embora a localização dos maiores volumes tenha mudado.
“Parece que aprendemos com 2023 e 2024”
Ao fazer uma avaliação da resposta regional, Evanilson Moraes afirmou enxergar sinais de aprendizado após as enchentes históricas que atingiram o Vale do Taquari nos últimos anos.
“Parece que nós aprendemos com 2023, parece que nós aprendemos com 2024. Estamos pecando pelo excesso de precaução, não pela falta. Parece que aprendemos a lição”, afirmou.
Ele defende que, diante de previsões que apontem risco significativo, a região continue adotando o princípio da prevenção, mesmo que posteriormente o cenário seja amenizado.
“Que bom que não teve enchente. Que bom que neste momento nós não estamos precisando acompanhar o nível do rio subindo. Todo mundo pode dormir tranquilo, acordar tranquilo para trabalhar, estar na sua casa, no seu comércio, sem se preocupar”, disse.
Na avaliação de Moraes, é preferível lidar com um alerta que não se confirma do que deixar de agir diante de uma ameaça real.
“Prevenir é melhor do que remediar. Quando a prevenção é feita e colocada em prática, não faz sentido transformar o fato de a enchente não ter ocorrido em motivo de crítica”, concluiu.






