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#RaquelCadore | Templo ferido

Quebrar um presépio não é apenas derrubar peças. É atingir uma narrativa coletiva: a tradição, o cuidado, a família que visita, a criança que pergunta, o idoso que lembra. Profanar um altar não é só desorganizar um espaço; é mexer com aquilo que, para muitas pessoas, é chão emocional e espiritual. Quando símbolos assim são atacados, não é apenas a comunidade católica que é ferida, é a cidade inteira.

Há feridas que a gente enxerga de longe e há outras que doem por dentro, porque atingem o que nos sustenta enquanto comunidade: a história, a fé, o pertencimento. Quando um templo é ferido, a perda vai além do material. Templos são pontos de encontro entre o humano e o sagrado, onde a vida aprende a parar, respirar, agradecer, pedir, chorar e recomeçar, onde a fé se organiza em gestos simples: uma vela acesa, uma oração silenciosa, um canto que atravessa gerações, um banco onde alguém senta para encontrar forças. Patrimônio histórico e cultural que guarda memória, identidade e continuidade.

A espiritualidade, quando é atacada, pede de nós aquilo que Encantado conhece bem: união, presença e compromisso, porque reconstruir é reafirmar valores e, diante de um ato que tenta apagar símbolos, a melhor resposta é acender consciência e cuidar juntos do que nos torna quem somos.

Símbolos são linguagem. Diante de símbolos feridos, a indignação é legítima, pois carregam histórias, promessas feitas em tempos difíceis, nomes de quem veio antes e ensinou a caminhar, memórias e gratidão. A fé, nesse sentido, é cultura viva, e a comunidade se reconhece nesses marcos e se organiza ao redor deles, costurando a vida como ela é: batismos, casamentos, despedidas, celebrações que sustentam a esperança.

Talvez por isso a ferida doa tanto: porque ela toca o que a gente considera sagrado. E sagrado não é só o religioso, é aquilo que não queremos perder: a paz, o respeito, a convivência, a confiança, a certeza de que ainda existem lugares no mundo onde é possível respirar e orar.

Vandalismo não é “travessura”. É crime, é ameaça ao patrimônio e à segurança, e exige uma reação comunitária maior do que o dano: cuidado, proteção e educação. É sobre responsabilizar, mas também sobre falar de respeito ao patrimônio, à diversidade religiosa e à convivência. Repudiar o vandalismo e solidarizar-se com a comunidade paroquial é também reafirmar os valores que queremos proteger.

Por isso, quando a violência toca um lugar sagrado, não atinge somente quem o frequenta, atinge o pacto de convivência, porque representa algo que deveria ser inegociável: respeito. E respeito é um tipo de espiritualidade cotidiana, aquela que se pratica quando escolhemos não profanar o que é precioso para nós e para o outro, permitindo que a espiritualidade siga sendo ponte entre pessoas, entre gerações, entre culturas.

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