“Até o avesso da minha alma é força”
A história de Valdicléria Padilha, 43 anos, é dessas que não cabem apenas em palavras. Mãe, mulher, sobrevivente do câncer, mãe solo de dois meninos autistas, ela carrega no corpo cicatrizes e, na alma, uma fé inabalável

Um diagnóstico que desafiou a medicina
Casada e grávida do primeiro filho, Valdicléria recebeu um diagnóstico devastador aos seis meses de gestação: hidrocefalia severa. Especialistas em Porto Alegre recomendaram a interrupção da gravidez. Disseram que era incompatível com a vida.
Ela se recusou. “Eu disse que ia ter meu filho assim. O que eu sabia fazer era rezar.” Foram semanas de ecografias e orações. Igreja, correntes de fé, devoção a Nossa Senhora Aparecida.
Até que, com 37 semanas, um novo exame trouxe o inesperado: o líquido havia diminuído. João Pedro nasceu. Sem a hidrocefalia que parecia irreversível.
Mais tarde, veio outro diagnóstico: ausência do septo pelúcido, uma membrana que divide os hemisférios do cérebro. E depois, o autismo.
João não falava português. Falava inglês
“Eu não entendia nada do que ele dizia. Até percebermos que ele falava inglês fluentemente.”
Com estímulos orientados por médicos, usando telas como ferramenta terapêutica, ele desenvolveu a língua inglesa sozinho. Hoje, aos 12 anos, traduz para a mãe o que fala. Tem hiperfoco em presidentes dos Estados Unidos, sabe datas, histórias, causas de morte. Memoriza tudo.
Depois veio o segundo filho, Luiz Otávio. Também autista, com diagnóstico mais leve. Dois meninos atípicos. Duas vidas que exigem dedicação integral.
“Se me perguntam se eu gostaria que eles fossem ‘normais’, eu respondo: eles são normais. E eu escolheria eles de novo.”
O câncer no meio do caminho
Em 2020, durante um banho, Valdicléria sentiu algo diferente no seio. “Era como uma brita.” No posto de saúde, disseram que era normal. O pai desconfiou. A família insistiu. Nova avaliação. Biópsia. Ela lembra do momento do diagnóstico: “Eu pensei: quanto tempo eu ainda vou ter de vida? O que será dos meus filhos?”
Veio a pandemia. Todas as cirurgias foram canceladas. A minha também, óbvio. Veio o medo de morrer sem tratamento. Poucos dias depois a oncologista Dra Caroline Frigeri ligou dizendo para eu estar lá na terça-feira que faria a cirurgia. Ela não queria retirar toda a mama e eu insisti. O exame revelou cinco focos de câncer além do principal. A dra Clarice Prado tinha razão, era necessário tirar toda a mama.
Foram 16 quimioterapias. Não pôde fazer radioterapia porque atingiria o coração. E quando tudo parecia se acomodar foi submetida a histerectomia total com anexectomia (retirada de útero, trompas, ovários) e também retirou a vesícula.
O corpo mudou. O espelho virou inimigo
“Eu tomava banho com a luz apagada. Não era só perder a mama. Era me sentir deformada.” Tentou reconstrução pelo SUS. Colocou expansor, rejeitou. Nova tentativa, infecção na véspera de Natal. Retirou sem anestesia geral porque queria estar com os filhos. Outra prótese, outra complicação. Desistiu.
“Eu pensei: acabou. Vou ficar assim”
Até que, por acaso, viu no Instagram um médico que havia criado um projeto social “Laços de Esperança” do Dr. Carlo Mattiello, junto ao Hospital de Teutônia, para reconstrução mamária gratuita. Mandou mensagem, mesmo sem muita esperança. Foi chamada. Precisava perder peso. Em 18 dias, perdeu 12 quilos.
Em 4 de outubro do ano passado, passou pela cirurgia. Reconstrução completa, gratuitamente. “Hoje eu posso usar decote. Posso me olhar no espelho. Não são iguais, nunca serão. Mas são minhas.”
A separação e a força
Depois do câncer, veio a separação. Mãe solo de dois meninos autistas. Sem carteira de motorista. Sem carro. Sem renda fixa. “Eu tinha um filho em cada braço e a certeza de que não podia deixar faltar nada.”
Fez carteira de habilitação. Começou a trabalhar em faxinas, lavar roupa para terceiros. Para dar conta de tudo, conta com o apoio incondicional dos pais, Terezinha e Domingos, e das irmãs, Mileidy e Itamony.
“Eu sei que não estou sozinha. Minha família é meu pilar”
Ela não romantiza a dor. Mas também não se coloca como vítima. “Muitas mulheres ficam em relacionamentos por dependência. A gente precisa aprender que é autossuficiente. Primeiro a gente se ama, depois ama alguém.”
No braço, uma tatuagem resume tudo: “Até o avesso da minha alma é força.” E talvez seja isso que explique como ela sobreviveu a diagnósticos impossíveis, câncer, cirurgias, abandono e ainda sorri ao falar dos filhos. “Eu não tenho sorte. Eu tenho Deus.” Sem dúvida é uma coragem que transborda.







