# Raquel Cadore | O inegociavel

Tem violências que começam pequenas o suficiente para caber em uma justificativa, e vão crescendo até virar um modo de existir: com medo, pisando leve, chegando a pedir desculpas por respirar.
Em Janeiro de 2026, o Rio Grande do Sul registrou 11 feminicídios. É um dado alarmante pois o feminicídio não termina no ato e não mata só uma mulher, mata um lugar inteiro dentro de uma família. Muda a história de crianças que crescem com uma ausência impossível de explicar, atravessando gerações, reorganizando uma árvore inteira: filhos e filhas, avós, vizinhos, colegas de trabalho, escolas, empresas. A vítima some e fica um rastro de trauma, insegurança e desamparo. Os números mais recentes ajudam a enxergar um ponto central: a porta de entrada da proteção muitas vezes não é alcançada a tempo. Em 2025, o RS registrou 80 feminicídios e conforme a Secretaria da Segurança Pública do RS, quase 75% das vítimas não tinham registrado ocorrência policial e 95% não possuíam medida protetiva. Isso não culpabiliza vítimas, expõe o tamanho do silêncio imposto pelo medo, pela dependência, pela vergonha, pela falta de rede e muitas vezes, pela descrença na resposta do sistema.
Quando penso no que é urgente e inegociável, não penso só em leis e procedimentos, embora sejam essenciais. Penso em escolhas diárias que parecem pequenas, mas que repetidas por muitos, mudam comportamentos, e o inegociável começa por nomear o que é violência. Controle não é cuidado. Ciúme não é prova de amor. Humilhação não é “briga de casal”. A violência doméstica não é “assunto privado”. A escalada da violência quase sempre deixa sinais: isolamento, ameaça, perseguição, chantagem, medo permanente, restrição de liberdade.
O inegociável é rede, e rede é ter com quem contar, ter palavra-código com alguém, ter um lugar para ir, ter apoio para registrar ocorrência, para pedir medida protetiva, para não ser desmentida. Cultura muda quando deixamos de proteger privilégios e passamos a proteger vidas, e isso é concreto: é não rir de piada que desumaniza; é não relativizar um amigo controlador; é ter coragem de perguntar “o que está acontecendo?”, de orientar a buscar ajuda e denunciar quando necessário.
Não podemos tolerar a normalização, porque isso também é violência. Quando a gente começa a aceitar o inaceitável, a gente começa a achar que é “assim mesmo”, e não é. Volto ao ponto cultural, porque é nele que a vida cotidiana se decide. Cultura é o que a gente tolera na mesa do almoço, no grupo de WhatsApp, no corredor do trabalho, na porta da escola. Cultura é o que a gente desculpa porque “ele estava nervoso”, “ele bebeu”, “foi só um empurrão”, “ela também provoca”. O inegociável é nenhuma mulher precisar morrer para que a gente acredite no que ela já estava vivendo.






