Quando a cognição recorta a realidade

Cognição
Cognição, de forma genérica, pode ser definida como um conjunto de processos mentais e cerebrais que usamos para adquirir, processar, armazenar e recuperar informações. Um exemplo de visões conexas e desconexas sobre determinado tema, que ficou marcado, foi quando o professor doutor de Direito da Universidade de Brasília, José Geraldo de Souza Júnior, respondeu à deputada Carol de Toni durante a CPI do MST. A deputada, por conta de sua posição política, afirmou que, dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma minoria recebe titulação das terras e que, em uma das visitas, encontrou centros de doutrinação marxista. Também informou que as pessoas ali vivem em situação de miserabilidade. Na resposta, o professor José Geraldo foi cirúrgico sobre aquela visão estreita e já concebida, alimentada por sua ideologia política: “Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver não é o que existe, mas é o que a senhora recorta da realidade”. O professor foi adiante na sua explicação, exemplificando e mostrando que a realidade é recortada por um processo cognitivo de historicização, porém me parece suficiente como abertura para contextualizar a fala do vereador Diego Pretto sobre como ele define “especialistas” que ‘ousam’ contrapor o que ele, vereador, já definiu como solução para as cheias do Rio Taquari. Afirmou o vereador, efusivamente, como de costume: “Os grandes especialistas dizem que no Rio Grande do Sul não deve ter dragagem. Tem em todo o país e no Rio Grande do Sul não vai adiantar tirarmos toda terra, areia, aquelas pedras nos nossos rios, em especial no Rio Taquari, Rio Jacuí e no Rio Guaíba”. Importante informar, também ao vereador Diego, que os “especialistas” concluíram, diante de estudos técnicos, que as enchentes depositaram apenas 17 centímetros de sedimentos. De acordo com especialistas do comitê de bacias e instituições envolvidas, como UFRGS, Serviço Geológico do Brasil e Univates, intervenções como dragagem são úteis para manter a navegabilidade das hidrovias, mas não são a solução principal para conter grandes inundações. As medidas mais eficazes para proteger a população incluem a qualificação dos sistemas de previsão e alerta, além de um planejamento rigoroso de ocupação das áreas de risco. Então, caro vereador Diego Pretto, eu não tenho como discutir com vossa excelência, porque a sua percepção só lhe permite enxergar o que o senhor já tem escrito na sua cognição: não vai ver o que existe, mas o que recorta da realidade.
Preconceito
O vereador Diego Pretto, além de falar dos “especialistas” dos rios, emendou, sem vírgula ou ponto e vírgula, o especialista em trânsito de Encantado que estaria propondo modificações de vias preferenciais e implantação de rótulas. Segundo ele, o que resolveria seria devolver, em algumas vias centrais, a mão dupla. Foi também preconceituoso quando se referiu ao custo cobrado pelo engenheiro de trânsito consultado pela prefeitura de Encantado: “Então a gente consegue entender como as coisas são decididas, a partir de ‘sou especialista’, dá um carteiraço, consegue um contrato — como falou a vereadora Daiane, um contrato de dois ou três mil. E daí é o rei, o Deus, é a pessoa que sabe da vida e da morte dentro do trânsito da cidade”.
Brio
O vereador Diego Pretto encheu o peito na tribuna quando falou de uma ‘reportagem’ que teria errado ao se referir que o sistema Gerint e Gercon era uma estratégia do governo federal. O vereador, de forma irônica, disse: “Antes de escrever, faz um ChatGPT, pelo menos para ter certeza antes de escrever. Eu fui procurar no ChatGPT e eu estava certo”. O vereador se referia à sessão anterior, quando comentou que sugeriu ao seu candidato ao governo, Zucco, dar fim a esse sistema de marcação de consultas especializadas e internamentos adotado pelo governo gaúcho. O vereador não citou quem fez a tal ‘reportagem’, porém eu vou informar. A abordagem foi feita pela colega Mari, que tem uma coluna no Força do Vale. Vamos aos detalhes não comentados pelo vereador. De fato, o sistema Gerint e Gercon foi adotado pelo Rio Grande do Sul para gerenciar as verbas do Fundo Nacional de Saúde no modelo de gestão descentralizada. Cada estado tem autonomia para gerenciar as verbas federais do SUS; desta forma, existe uma anuência do Ministério da Saúde para a estratégia adotada aqui no estado, que é fiscalizada pelo TCU e pelo próprio ministério. E a gestão do SUS é compartilhada entre União, estados e municípios. Então, caro vereador, mais importante que a resposta é a pergunta, inclusive ao ChatGPT, que, mesmo tendo uma inteligência artificial, não dá conta da desinteligência natural.
Deselegância
Sempre tive um bom relacionamento com o vereador Diego Pretto. Sempre respeitei a pessoa do vereador, mesmo discordando mais do que concordando com relação ao seu posicionamento político e à sua atuação na vereança. Durante a Suinofest, falava com o diretor de uma importante empresa de Flores da Cunha que visitava o stand da Salumeria Perondi, com a qual fiz uma parceria nos presuntos crus. Nesse instante passava o vereador; eu o chamei e o apresentei ao diretor visitante. Depois de apresentado, Diego Pretto teceu comentários sobre o meu trabalho jornalístico, que naquele momento sequer estava em pauta; disse que não concordava com nenhuma letra do que eu escrevo, mas defendia meu direito de escrever. Instalou-se um clima chato, mesmo que seja um direito do vereador, porém estávamos em um ambiente social e o assunto era o presunto, que também é apreciado pelo Diego. O vereador estava com um copo onde ainda restava um pouco de vinho, já que saía naquele momento do salão gastronômico. Pressuponho que a deselegância exteriorizada, não habitual, tenha motivos presentes nas garrafas encorpadas do bom vinho servido, em que o vereador se inspirou para rebuscar a frase feita sobre a liberdade de expressão, atribuída a Voltaire. Original, tanto quanto seu projeto das emendas impositivas.
Raquetada
O vereador Diego Pretto também foi alvo de seus colegas na sessão desta semana. Diego comentava que a obra de uma rótula no entroncamento das ERS 129/130, em Lajeadinho, era eleitoreira e de final de mandato do governo Leite, de quem é crítico, mesmo que seu partido, o PP, estivesse junto até bem pouco tempo. Vereadores do PSDB devolveram dois quentes e um fervendo. Obra que nenhum dos governadores em 50 anos fez. A vereadora Joanete Cardoso, sempre muito contida em seus pronunciamentos, também direcionou ao vereador Diego seu desagravo: “Nunca na história de Encantado, de município algum, teve presença tão presente de governador e tanto recurso recebeu do governo do Estado. Estava muito presente em administrações passadas, quando eles deviam para os municípios, não pagavam nem o tripartite que era do SAMU. Agora estão pagando, trazendo muita obra, e a gente tem que agradecer e reconhecer isso. Não tem como não reconhecer; por favor, é só quem não quer enxergar”.
Pedágios
A vereadora Aline Costa Ganasini também endereçou suas críticas ao vereador Diego Pretto. “Tenho visto gente vibrando pelo cancelamento do Bloco 2; ninguém percebe que quem perdeu fomos nós, foi Encantado. Nós perdemos porque perdemos essas obras. Quantas vidas poderiam ter sido salvas se essas obras existissem”, destacou a vereadora Aline. Olhando para o vereador Diego, disse que não via motivo de festa, de comemoração com o cancelamento do leilão. A vereadora Ganasini finalizou com uma importante observação: “Nós deveríamos saber que o principal partido que temos é Encantado”.
Aparte
O vereador Diego Pretto pediu um aparte à vereadora Aline e disse que opinião cada um tem. Disse que tem muito a comemorar por conta de que o pagamento seria por trinta anos. De forma muito no achismo, o vereador quer antecipar a decisão do próximo governo, que poderá investir os valores constantes no edital, de R$ 1,5 bilhão, aqui no Vale. Não existe nenhum compromisso assumido até agora dos pré-candidatos nesse sentido.
Subjetivo
O vereador Diego Pretto vende uma ideia que, muito provavelmente, não é real, em se tratando dos valores apontados do FUNRIG, de R$ 1,5 bilhão, para o leilão do Bloco 2, que agora está cancelado. O vereador acredita que são suficientes para a duplicação e todas as obras necessárias de Venâncio até Casca, e sobra ainda para obras no trecho até Erechim. Se isso fosse verdadeiro, por que não apareceu nenhum interessado no leilão?
Dedicação
Veja quantos tópicos dedicados ao vereador Diego Pretto neste espaço. Acho que está fazendo por merecer. Com o devido respeito e mal comparando, sua atuação na Câmara está parecendo aquele famoso seriado “Todo Mundo Odeia o Chris”. Será que é merecido?
Desorganizados
Vereadores de Encantado debatiam nessa semana a possibilidade de mudar o dia das reuniões ordinárias e deixar as segundas-feiras para reuniões de comissões. O vereador Valdecir Cardoso foi ao cerne quando disse que tinha todos os outros dias da semana para reuniões de comissões e terminou com uma constatação: “Respeito a opinião de todos, mas eu acho que nós somos, talvez, desorganizados”. Adivinha quem não gostou do comentário? Acertou quem pensou no Diego, que sinalizou, com as mãos, sua desaprovação, já que também concorda que as sessões sejam nas terças.
Frase
“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.”
Friedrich Nietzsche






