#ColunaDaMari | Por que a morte de um cão nos comove mais do que a de uma mulher?

A morte do cão comunitário Orelha, após agressões em Praia Brava, em Santa Catarina, e o décimo feminicídio registrado no Rio Grande do Sul em 2026 foram, sem dúvida, as notícias mais comentadas da semana. Ambos os casos receberam amplo destaque nos principais portais do país, como o G1. Mas foi justamente a diferença na comoção gerada por cada um deles que mais me chamou a atenção.
Desde que a brutal morte de Orelha passou a circular nas redes sociais, pedidos de justiça viralizaram em todo o Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, estado vizinho ao local do crime. E é preciso deixar claro: um ato de violência como esse jamais pode ficar impune. O cão, descrito por moradores e frequentadores como dócil e querido, aproximava-se das pessoas apenas para oferecer carinho. Não merecia, em hipótese alguma, o fim que teve.
O que me assusta, no entanto, é a idolatria doentia que cresce em nossa sociedade, onde, muitas vezes, a vida de um animal parece ter mais valor do que a de um ser humano. Nossos pets são seres indefesos, totalmente dependentes dos humanos e que não pediram para estar neste mundo. Merecem, sim, cuidado, respeito e proteção. Mas muitas mulheres vítimas de feminicídio estão exatamente na mesma condição de vulnerabilidade. Ainda assim, por que dez mulheres mortas em menos de um mês não geram a mesma indignação?
É comum ouvir que a mulher “escolheu” estar naquela relação. De forma geral, pode-se dizer que existe consciência na escolha de um parceiro. Algumas se envolvem mesmo sabendo de antecedentes ou comportamentos violentos. Mas, na maioria dos casos, o agressor não revela seu lado sombrio no início da convivência. Muitas mulheres não denunciam porque acreditam na mudança do companheiro, porque dependem financeiramente dele para criar os filhos, ou por medo e vergonha do julgamento social.
Outras denunciam, conseguem medida protetiva — que, muitas vezes, não protege coisa alguma —, se separam e, ainda assim, acabam assassinadas. Diante desse cenário complexo, a sociedade prefere se acomodar no silêncio e no julgamento fácil, tratando o feminicídio apenas como resultado de uma escolha da vítima. Talvez por medo. Talvez por conveniência.
Quando comparamos a violência contra um animal indefeso e a violência contra mulheres, é impossível encontrar qualquer justificativa para um feminicídio. Ainda assim, considero ainda mais perigoso quem tem coragem de agredir um ser totalmente indefeso. Estudos científicos indicam que a violência causa maior repulsa quando a vítima é percebida como indefesa, como um bebê ou um cachorro. Também apontam que preferir animais a seres humanos é mais comum do que se imagina.
Mesmo assim, isso não entra na minha cabeça. Sei que o egocentrismo humano tem deteriorado as relações pessoais e tornado a convivência cada vez mais difícil. Mas, se não mudarmos nossa percepção, caminhamos para um mundo ainda mais frio e desigual. Toda vida tem valor — mas a vida humana deveria pesar mais. Sempre.






