A Balsa Vicentina do Rio Guaporé

As duas “soluções” que serviram como “alternativas” para o colapso do sistema de logística de transporte do Vale do Taquari (VT) desde a primeira catástrofe climática de outubro de 2023 se resumiram em: 1. Balsas e; 2. Pontes móveis. Essas que se constituíram como simples “pinguelas” do tipo “balança mas não cai” construídas pelo Exército Brasileiro, cujo sistema de travessia de pedestres em cima de botes não pode ser considerado como uma “ponte”, por mais provisório – e necessário – que tenha sido.
De lá para cá, nada mudou, considerando que já estamos no segundo semestre de 2026.
A rodovia ERS-130 continua com a sua praça de pedágio ativa, assim como a mesma rodovia continua a mesma desde a sua construção: pistas simples, as pontes obsoletas e carentes de manutenções preventivas, cujas melhorias se reduzem a uma recapagem aqui e outra ali nesta rodovia com mais de meio século de existência, sendo inaugurada no ano de 1975.
Por sua vez, a rodovia ERS-129 até hoje permanece praticamente sem pavimentação, com chão batido na maior parte do seu trecho, onde neste exato momento foi implementado o “moderno” sistema “para e anda” em alguns trechos do interior de Roca Sales/RS, sendo a “alternativa viável” para o deslocamento entre a Região Alta até Lajeado/RS, considerando o colapso da ponte do rio Guaporé.
As duas rodovias estaduais, privatizadas ainda em meados dos anos 1990 (do século passado!), permanecem desde então há mais três décadas praticamente as mesmas de outrora. Interligadas à BR-386, formam o principal eixo logístico do VT entre Guaporé/RS e Lajeado/RS até a Capital do Estado. Nada mais, os fatos falam por si.
Ressalta-se neste contexto que o VT possui uma Estrada de Ferro (EF-491) que liga o Polo da Refinaria Alberto Pasqualini (Triunfo/RS) até o Planalto Médio (Passo Fundo/RS), comunicando diversos municípios das “Regiões Imediatas” de Lajeado/RS e Encantado/RS em um trajeto consolidado há décadas. No entanto, esta ferrovia, também privatizada na década de 1990, apresenta-se hoje igualmente precarizada e ociosa, ao mesmo tempo em que um dia revitalizada, possui grande relevância para a logística regional, tanto de mercadorias, quanto de passageiros, constituindo-se como uma alternativa prática e eficiente frente ao colapso logístico representado pelas atuais condições precárias das rodovias do VT.
Em relação ao transporte aquaviário, devido ao intenso assoreamento do rio Taquari nos últimos anos, sublinha-se a necessidade de avaliações técnicas especializadas no que tange à sua navegabilidade a partir do Porto de Estrela/RS até a Capital do Estado, entrementes ao próprio planejamento de desassoreamento do caudaloso rio que forma a Bacia Hidrográfica do Taquari.
É certo que a modernização do sistema logístico de transporte se constitui ao mesmo tempo como prioridade e uma ameaça ao desenvolvimento do VT caso não for efetivada no curto prazo, principalmente após as sucessivas e não menos persistentes catástrofes climáticas que assolaram a região.
De acordo com os especialistas sobre o assunto, não há um modelo de transporte perfeito que se sobreponha aos demais, muito menos ser possível a um país com dimensões continentais se desenvolver de fato vinculado essencialmente a um único modal de transporte, como ocorre no caso brasileiro, não obstante estar dependente dos combustíveis fósseis derivados do petróleo, constituindo-se como um dos fatores do denominado “Risco Brasil” como uma das amarras ao desenvolvimento nacional. Em contrapartida, os modernos sistemas de logística multimodal europeus e asiáticos se constituem nos melhores exemplos de eficiência quanto ao desenvolvimento econômico desses países, onde o espaço geográfico é dotado de fluidez para o escoamento produtivo e para o transporte de passageiros, formando uma complexa rede de conexões materiais e imateriais sobrepondo espaços em tempo real.
Afinal de contas, só é possível ter “resiliência” face ao progresso, ao desenvolvimento econômico, social e ambiental, onde uma carcaça de ponte de ferro enferrujada não pode ser considerada como símbolo de resistência ao que as enchentes levaram, considerando que a água se constitui como símbolo máximo de purificação, e mesmo frente à esta tragédia humanitária sem precedentes, é mister afirmar que as inundações trouxeram à tona a necessidade de uma ressignificação da região como um todo sob a égide das fronteiras tecnológicas ditadas pela Globalização.
Para tanto, é necessário estabelecer as prioridades do VT frente aos conceitos e métodos definidos pela Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR – Lei Federal nº 11.962/2024) em consonância a modelos produtivos inovadores considerando a sustentabilidade dos geossistemas já fragilizados, pois é necessário pensar o futuro do VT com todo o seu potencial, de forma límpida e fluídica como a água, a fonte da vida!
Potencial que o Vale do Taquari sempre demonstrou através das forças produtivas estabelecidas em forma de contínuo progresso técnico, onde o cooperativismo e o empreendedorismo são características marcantes que fazem dessa região um dos vales mais férteis do mundo, cuja produção está inserida nos fluxos comerciais das modernas Cadeias Globais de Valores.
No entanto, frente à enchente de demagogias de toda parte, é certo que a balsa utilizada para atravessar o rio Guaporé se constitui como um símbolo da atual fragilidade estrutural do VT, onde sobressaem laivos de certo retrocesso histórico, social, produtivo e ambiental em todos os sentidos, sobretudo no que condiz ao não cumprimento dos princípios básicos da Administração Pública, com destaque para as prerrogativas da “Eficiência” e da “Moralidade”, em que pese o processo de privatização do sistema viário ser controlado pelas Agências Reguladoras do Estado.
Fragilidades que impedem o pleno desenvolvimento do principal complexo produtivo regional, considerando neste contexto a imprescindibilidade do acesso contínuo de fornecimento da ração para manter a produção intensiva da altamente especializada cadeia produtiva da Avicultura e da Suinocultura de integração.
Neste contexto, é mister ressaltar a preocupante questão que envolve o direito à Rede de Atendimento de Média a Alta Complexidade estabelecido através da Lei Federal nº 8.080/1990, que determinou a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), onde parcela significativa da população que necessita se deslocar diariamente para os principais hospitais da região e da Capital encontra-se com dificuldades, ou mesmo impedida, do acesso a estes serviços, revelando um caso explícito de ilegalidade no que tange ao cumprimento do Artigo 196 da “Constituição Cidadã” (CF/1998). O descaso e a ausência dessa pauta pelas autoridades e mesmo pela mídia local é de um silêncio ensurdecedor.
Neste processo de depuração promovido à força pelas mudanças climáticas, sem dúvidas este é um momento importante de renovação para a sociedade global, onde as estratégias de Planejamento Territorial devem estar essencialmente fundamentadas nos preceitos estabelecidos pelas diretrizes do Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU).
E para que as pautas das modernizações necessárias ocorram de forma efetiva, é fundamental definir o espaço geográfico tal qual atualmente é estabelecido e como deve ser concebido, considerando as inúmeras alternativas e possibilidades disponibilizadas através das inovações tecnológicas, ao mesmo tempo que as estruturas institucionais são reforçadas e/ou remodeladas de acordo com cada necessidade organizacional, sobretudo no que condiz à qualificação dos agentes tomadores de decisão!
A Metáfora de Gil Vicente
A “Balsa Vicentina” é o termo alusivo à obra satírica de Gil Vicente (1465–1536), o Auto da Barca do Inferno, publicada no ano de 1517, cujas metáforas remetem à clássica concepção metafísica humana em toda a sua compleição, onde a balsa configura-se como o meio de transporte utilizado para atravessar o rio ao apagar das luzes, considerando que para cada alma há um tipo de embarcação de acordo com o seu legado de vida.
Por sua vez, a “Barca do Purgatório” é reservada para aqueles que se utilizaram de retóricas para enganar os outros a proveito próprio durante uma vida inteira eivada de egoísmos, vaidades e mesquinharias, acompanhados, é claro, por seus cúmplices que reforçaram fielmente os discursos demagógicos daqueles sem questionar as consequências que estas atitudes tiveram para a promoção de injustiças de toda sorte que culminaram na decadência da sociedade em geral.
Por outro lado, a “Barca da Glória” é reservada aos justos, aos humildes de coração, que reconhecem as suas próprias imperfeições humanas no cotidiano da transitoriedade da vida, onde os valores do trabalho, da solidariedade, da compaixão e da fraternidade ao próximo se constituem como princípios universais segundo a máxima de que é perdoando que se é perdoado.
Modernamente, a “Barca da Glória” deve ser concebida com uma ponte robusta para alcançar o pleno Desenvolvimento Regional, onde os modernos sistemas produtivos estão conectados a sistemas logísticos intermodais movidos por fontes de energias limpas e renováveis, agora entendidos não apenas como metáforas para alcançar o ideal, mas como realidade tangível e real, sobretudo no que concerne à sustentabilidade dos geossistemas antropo-naturais.
É certo que a prática diária da cidadania é fator imprescindível para cruzar a ponte com segurança, devendo ser reforçada diariamente através da fraternidade entre os homens como a verdadeira essência para uma sociedade que se define como devidamente desenvolvida, justa e igualitária.
Sobre o autor
Rodrigo Fischer é Geógrafo (Bacharel; Licenciado pela Universidade Federal de Santa Catarina; possui Mestrado em Geografia na Área de Desenvolvimento Regional e Urbano (UFSC/PPGEO). Autor da dissertação “O Complexo da Avicultura Industrial como Fator de Desenvolvimento Regional do Vale do Taquari”. Também é Médico Veterinário graduado pela Universidade de Passo Fundo (UPF).






