Bernardo Katz “Quando uma cidade melhora, todos ganham”

0 “judeu” encantadense revisita trajetória marcada pelo trabalho, pela família e pela vida comunitária em Encantado
Em entrevista ao Página Central, Bernardo Katz revisitou uma trajetória ligada ao trabalho, ao comércio, à família e à vida comunitária de Encantado, cidade onde nasceu e onde construiu boa parte da própria história.
A conversa começou pelas origens. Filho de imigrantes judeus vindos da Polônia, cresceu ouvindo relatos de uma família que chegou ao Brasil fugindo de perseguições e buscando reconstruir a vida.
O pai, Marcus Katz, chegou ao país ainda jovem e acabou vindo para o Vale do Taquari depois de trabalhar como vidraceiro e se aproximar do ramo das máquinas de costura. Em Encantado, viu oportunidade. Segundo Bernardo, o pai dizia ter encontrado uma terra onde poderia crescer. A partir dali a família passou a fazer parte da vida econômica e comunitária do município.
A influência paterna aparece em vários momentos da entrevista. Bernardo recorda o pai como um homem prestativo, envolvido com a comunidade e atento às necessidades ao redor. Foi com ele que aprendeu parte da lógica dos negócios, mas também a disposição para participar de causas coletivas. O envolvimento em entidades, segundo Bernardo, não foi planejado como projeto pessoal. Aconteceu de forma natural, pela disponibilidade em ajudar.
“Chama o Bernardo”
Ao longo das décadas, Bernardo participou de diferentes frentes comunitárias. 90% das entidades tiveram a participação dele. Esteve ligado à Associação do Menor de Encantado, à Associação Comercial, ao CDL, ao Clube Comercial, ao Clube Recreativo, ao CTG e a iniciativas que marcaram a história local. Ele também relembrou ações de apoio à Apae e projetos que, em sua avaliação, ajudaram a consolidar Encantado como referência regional.
Entre as lembranças de maior orgulho, citou a atuação na Associação do Menor, criada para atender crianças no turno inverso da escola, com alimentação e acompanhamento. Para Bernardo, o trabalho comunitário sempre teve uma lógica simples: quando uma cidade melhora, todos ganham com isso. Essa visão também orientou sua passagem pela Associação Comercial, onde permaneceu por cerca de 40 anos e participou da comissão de patrimônio responsável pela nova sede da entidade.
A entrevista também passou por momentos importantes da vida cultural e social de Encantado. Bernardo lembrou eventos, shows e iniciativas que movimentaram a cidade, como a Suinofest, o Canto da Lagoa e apresentações que marcaram época. Ao falar dessas realizações, fez questão de dividir méritos com outras lideranças e reforçar que grandes projetos não são feitos por uma pessoa só.
O namoro proibido
No campo pessoal, Bernardo falou sobre a relação com Dulce, com quem formou família. O namoro enfrentou resistência no início, mas seguiu adiante. Eles se casaram no fim da década de 1970 e tiveram três filhos: Mônica, Fernanda e Arthur. As duas filhas moram em Encantado e seguem ligadas à comunidade. Arthur vive em Sapiranga e atua na área da Justiça. A família também cresceu com a chegada dos netos, lembrados por Bernardo com orgulho.
O Parkinson
A saúde foi outro ponto tratado com franqueza. Bernardo convive há anos com o Parkinson, doença que provoca movimentos involuntários e exige adaptação na rotina. Ele contou que iniciou o tratamento há cerca de 14 anos e falou sobre os efeitos emocionais da condição, sem esconder as dificuldades. Mesmo com limitações, afirma que segue participando da vida comunitária sempre que possível.
A juventude
Ao olhar para o futuro de Encantado, Bernardo defende que a cidade precisa manter os jovens próximos. Para ele, o desenvolvimento passa por fazer com que novas gerações enxerguem o município como casa, independentemente da origem social ou da condição econômica. A ideia, segundo ele, é criar oportunidades para que mais pessoas possam crescer junto com a cidade.
Com 73 anos, Bernardo resume sua caminhada como a de alguém que trabalhou muito e se dedicou à comunidade sem arrependimento pelo tempo investido. Comerciante, voluntário e liderança comunitária, ele afirma sentir orgulho de ter contribuído para a construção de uma Encantado melhor.
A maior lição, para ele, está na responsabilidade de quem assume uma função pública ou comunitária. Um cargo, disse Bernardo, só tem sentido quando é encerrado com honra e orgulho. Caso contrário, vira apenas mais uma passagem sem contribuição real.






