A arte de projetar o dom de cuidar

A trajetória de Ana Izabel e Nestor Bergamaschi acompanha parte importante da história recente de Encantado. Ela, arquiteta responsável por projetos residenciais, comerciais, corporativos e comunitários. Ele, médico pediatra que há mais de quatro décadas atende famílias da cidade e da região. Juntos, construíram uma vida marcada pelo trabalho, pela família e pela participação na comunidade.
Ana Isabel, conhecida como Ane, nasceu em Relvado e cresceu em uma família ligada ao comércio. Ainda criança, ajudava na loja dos pais, Augusto e Irma Polese. A convivência com o trabalho e com o envolvimento comunitário da família influenciou sua formação.
Depois de estudar em Relvado e cursar o magistério em Encantado, formou-se em Arquiteturae Urbanismo pela Unisinos, em 1985. No mesmo ano, casou-se e passou a morar em Encantado.
Nestor nasceu na Linha São Marcos, no interior de Putinga. Ainda menino, mudou-se para Esteio, onde continuou os estudos. Mais tarde, formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e se especializou em pediatria. Em fevereiro de 1983, iniciou a carreira em Encantado.
Os dois se conheceram em um baile realizado em Relvado, em dezembro de 1975. O relacionamento teve reencontros e períodos de afastamento, mantidos por cartas, telegramas e fonogramas. Em 1983, decidiram retomar o namoro. Dois anos depois, casaram-se e escolheram Encantado para construir a família.
A escolha por Encantado
Quando Nestor chegou à cidade, havia poucos médicos em atividade. Ao longo dos anos, participou da ampliação dos serviços de saúde e defendeu a chegada de novos profissionais. Alias, continua defendendo: “Tem especialidades que precisamos oferecer urgentemente”. A rotina de plantões e atendimentos de urgência, porém, exigiu mudanças frequentes nos planos familiares.
O vínculo com os pacientes
No início da carreira, acompanhou durante cerca de 40 dias uma bebê prematura que chegou a pesar 790 gramas. O caso exigia várias visitas diárias ao hospital. Anos depois, passou a atender também as filhas daquela paciente, exemplo do vínculo formado com diferentes gerações e milhares de pacientes
Ana iniciou a profissão em um mercado ainda pequeno e tornou-se uma das primeiras mulheres a trabalhar como arquiteta em Encantado. Começou com residências e ampliou a atuação para salas comerciais, centros clínicos, prédios e obras hospitalares.
Entre os trabalhos de maior significado está a primeira ampliação do hospital de Encantado, realizada com mobilização da comunidade. Também participou do projeto do Centro Administrativo, de obras religiosas e da remodelação de espaços comunitários.
Outro projeto marcante foi o edifício Vila Bela, empreendimento com mais de dez pavimentos que exigiu muito de trabalho. Anne acompanhou desde a fundação até a entrega de apartamentos. Mais tarde, dois dos filhos do casal passaram a morar no prédio. “E aí o valor afetivo fica ainda maior. Três netos moram ali”.
A arquiteta também presidiu a Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Vale e manteve participação em diferentes iniciativas locais. Para ela, um projeto precisa reunir estética, funcionalidade e atenção às necessidades de quem utilizará o espaço.
Comunidade forte
O envolvimento do casal com Encantado também aparece na criação da Escola Mário Quintana. No início da década de 1990, um grupo de pais passou a discutir a necessidade de uma escola particular no município. Em 1993, uma reunião no Clube Comercial reuniu dezenas de famílias interessadas. A principal dificuldade era encontrar uma mantenedora que permitisse a abertura no ano seguinte. Depois de várias negativas, o projeto foi apresentado à Campanha Nacional de Escolas da Comunidade e recebeu aprovação ainda naquele ano. As atividades começaram em 1994.
A educação também teve papel central dentro de casa. Os três filhos seguiram a formação universitária. João Augusto escolheu a Medicina, Isabela formou-se em Odontologia e Maurício em Ciências Econômicas. A família conta ainda com cinco netos.
Mesmo com jornadas profissionais intensas, Ana e Nestor afirmam ter preservado a convivência familiar. Os compromissos nem sempre permitiam muito tempo juntos, mas o casal buscava manter presença nos momentos importantes.
Depois de mais de quatro décadas, os dois continuam em atividade e ligados aos projetos da cidade. Nestor permanece na pediatria, enquanto Anne segue trabalhando com arquitetura e reformas. Concluem dizendo que são um casal normal, “uma familia normal, como todas, que trabalha, que gosta de se reunir com os amigos, que ama Encantado e quer sempre o melhor para todos que aqui vivem” Em áreas diferentes, Ana e Nestor ajudaram a projetar espaços, atender gerações e fortalecer instituições que permanecem presentes na vida de Encantado.






