Cezar Vanzeta e Evandro Bratti: Mas podem chamar de Bocatto!

A trajetória do Bocatto começou longe do balcão que hoje é conhecido por diferentes gerações de Encantado e de outras cidades do Vale do Taquari. Antes de abrir o próprio negócio, César Vanzetta e Evandro João Bratti passaram por Soledade, onde trabalharam por quase quatro anos em um restaurante. Foi ali que aprenderam a rotina da gastronomia, fazendo de tudo um pouco: atendimento, limpeza, preparo de carnes e trabalho de balcão.
A experiência serviu como base para o passo seguinte. Depois de guardar algum dinheiro, os dois decidiram voltar a Encantado e apostar em um trailer de lanches. O ponto escolhido, porém, não era visto como promissor por muita gente. Havia quem dissesse que o local não era central, que a subida atrapalharia o movimento e que o negócio dificilmente daria certo. Mesmo assim, Vanzetta e Bratti decidiram arriscar.
O Bocatto abriu em 2 de novembro de 1992. O começo foi difícil. O movimento era baixo e, em alguns dias, enquanto um permanecia no trailer, o outro fazia serviços de servente de pedreiro para complementar a renda. Aos poucos, a clientela começou a aparecer, principalmente pela rede de amizades que os dois mantinham na cidade. O que ajudou a firmar o ponto, segundo eles, foi uma combinação simples: cerveja gelada, lanche caprichado e atendimento próximo.
Na época, os dois ainda não dominavam o preparo de xis e cachorro-quente. O aprendizado veio na prática, ouvindo sugestões, testando receitas e ajustando o cardápio conforme a resposta dos clientes. O nome Bocatto também surgiu quase por acaso. Quando compraram o trailer, o espaço ainda tinha outra identificação, mas havia a palavra “Bocatto” escrita em uma parede. A sugestão de manter o nome veio de um amigo da turma, e a marca acabou ficando. Com o tempo, o trailer se transformou em ponto de encontro. Famílias que frequentavam o local no início passaram a levar os filhos, e hoje muitos desses filhos também levam as próprias crianças.
O xis se tornou o principal cartão de visita. O X salada é o mais pedido, mas o X filé ocupa um lugar especial entre os frequentadores. A diferença, segundo os proprietários, está no preparo: o filé é servido inteiro, e não picado. A casa também produz o próprio bife utilizado nos lanches, em uma estrutura voltada exclusivamente para o consumo do negócio.
Xis salada é o carro-chefe, mas hoje o cardápio é mais elaborado
A regularidade é uma das preocupações centrais da operação. Carnes e filés são pesados, os pratos seguem padrão e a chapa continua sendo acompanhada de perto pelos proprietários e por funcionários de confiança. Em dias de maior movimento, especialmente nos fins de semana, a experiência da equipe faz diferença no ritmo do atendimento.
Ao longo dos anos, o cardápio cresceu de forma gradual. Primeiro vieram os lanches. Depois, foram incorporados pratos, carnes, picanha, filés com molhos e outras opções, muitas delas inspiradas em sugestões de clientes, viagens e conversas do dia a dia. A ampliação ocorreu sem afastar o Bocatto daquilo que o tornou conhecido: comida com padrão, atendimento direto e vínculo com quem frequenta a casa.
A trajetória também deu origem ao Bocattinho, criado quando parte do público jovem passou a se concentrar em outros pontos da cidade. A proposta era oferecer um lanche menor, prático, para comer na mão, em um ambiente voltado ao movimento noturno. Durante muito tempo, o Bocattinho foi endereço certo depois de bailes, shows e eventos, chegando a atravessar madrugadas em funcionamento.
Mudança de comportamento
A pandemia mudou parte desse comportamento. A circulação noturna diminuiu, o público passou a sair menos e as entregas ganharam força. O hábito criado naquele período permaneceu e hoje faz parte importante da rotina do negócio. Para os proprietários, a mudança mostrou como o comportamento das pessoas interfere diretamente no funcionamento da cidade e na economia local.
A marca também avançou para Lajeado. Primeiro, com o Bocattinho na Univates. Depois, com restaurante dentro da instituição, onde permaneceram por cerca de oito anos. Mais tarde, os proprietários decidiram abrir uma unidade em outro endereço, no prédio da Lial, ampliando a presença do Bocatto na “Capital do Vale”.
Mesmo com a expansão, Vanzetta e Bratti mantêm uma visão cautelosa sobre novos passos. A dificuldade de encontrar mão de obra é apontada como um dos principais desafios da gastronomia. O setor exige trabalho à noite, nos fins de semana e em feriados, além de uma rotina que continua mesmo depois do fechamento das portas, com limpeza, organização e preparação para o dia seguinte.
Mais de três décadas depois da abertura do trailer, o Bocatto segue como uma referência gastronômica e afetiva em Encantado. O que começou como uma aposta em um ponto desacreditado se transformou em uma marca reconhecida pela constância, pelo trabalho diário e pela relação construída com a comunidade.






