Saúde

Um dia de cada vez…

Há algum tempo escrevi aqui sobre a necessidade de, em determinados momentos da vida, simplesmente fazer o que tem que ser feito. Entre tantas escolhas difíceis, falei da decisão de fazer uma cirurgia bariátrica.

Na última segunda-feira, 24 de agosto, completaram-se dois anos da cirurgia. E posso dizer, sem nenhuma dúvida, que foi uma decisão acertada. Meu único arrependimento talvez seja não ter tomado essa decisão aos 30 anos.

Relutei bastante para escrever esse depoimento e novamente me expor, pois sabia que só escrever não seria suficiente. Precisava mostrar. E, mais do que isso: eu preciso revisitar essas fotos de vez em quando. Não por vaidade, por memória. Para acreditar de onde eu vim e para onde não quero voltar. Muitos que veem essa comparação reagem do mesmo jeito: “não lembro de te ver assim.” Eu lembro. A foto é de 2023, não tem IA, não tem distorção. Enfim, exposta estou.

Quando decidi, eram 122 quilos. Hoje, são 85. Mas a mudança vai muito além da balança. Meu diabetes chegou a números próximos de 400. Hoje beira 110. Isso reforça a certeza de que a obesidade é doença. E ela mata.

Mas tenho bem presente que cirurgia sozinha não resolve a obesidade.

A bariátrica opera o estômago. Não opera a cabeça. E a cabeça continua “gorda”. Ela lembra dos hábitos, dos sabores, dos excessos. Ela negocia, tenta convencer que um pouquinho não faz diferença. E, às vezes, vence.

Nos últimos seis meses, minha balança praticamente estacionou. Ainda não cheguei ao peso que desejo e preciso. E também sei que tenho beliscado mais do que deveria. É aí que a luta fica mais difícil.

Outra grande vitória foi começar a frequentar academia três vezes por semana. Não vou romantizar: é na força do ódio mesmo. Acordo e vou. Se eu parar para pensar muito, desisto. Então simplesmente faço.

E o motivo continua sendo o mesmo que me assustou lá atrás: o medo de perder minha autonomia. Não quero envelhecer dependendo dos outros para fazer aquilo que hoje faço sozinha.

Hoje entendo que emagrecer não é apenas sobre roupa, espelho ou aparência. É sobre caminhar, trabalhar, viajar, subir uma escada, levantar de uma cadeira. É sobre continuar dona da própria vida pelo maior tempo possível.

Tenho ciência e temo que posso fracassar. Sei que existe o risco de recuperar peso e sei que a obesidade não desapareceu porque emagreci. Por isso, não gosto e nem posso dizer que estou curada. Prefiro dizer que estou vencendo. Porque vencer pressupõe luta. E essa luta acontece todos os dias.

Dois anos depois, olho para trás feliz pela decisão que tomei e com a certeza de que faria tudo novamente. Só faria antes. Mas, como não dá para voltar aos 30, e o caminho da finitude se avista, resta cuidar muito bem dos anos que ainda tenho pela frente.

E amanhã, quando o despertador tocar para ir à academia, provavelmente vou reclamar, pensar em ficar na cama e tentar negociar comigo mesma. Depois vou levantar. E cumprir mais um dia. Ir pra academia, fugir da geladeira, me policiar, resistir… e pecar. Enfim, vou cair e vou levantar para continuar a fazer o que precisa ser feito.

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