Humanos

Diariamente me pego refletindo sobre que rumo estamos tomando enquanto sociedade. E me pego lembrando de como agíamos há 20 anos atrás, afinal há duas décadas atrás eu completava a maior idade e já sabia exatamente distinguir o certo do errado e as consequências que certos atos podem gerar. Algo que eu considero o básico. Há algum tempo lembro que vi “um meme” que me chamou a atenção, o vídeo mostrava um corte de um programa de televisão dos anos 90, com um grupo de pagode tocando e que a legenda era a seguinte: “Nessa época ninguém tinha depressão”. Obvio que tem um pouco de ironia na afirmação, porque todos sabemos que a depressão é uma doença grave que hoje afeta uma grande parte da nossa população.
Mas a frase também traz reflexão: “não existia depressão” mas também não existia tanto ser humano sem noção, tantos direitos mal interpretados, tanta gente hipócrita se escondendo atrás de uma religião, de um discurso bonito ou de um transtorno que muitas vezes nem se tem. Hoje já virou regra ser considerado “um bom cidadão” por se converteu, por lacrar em redes sociais ou até mesmo esconder seu mau-caratismo atrás de um atestado que pode muito bem ser forjado. O fato é que o errado está virando o certo e o certo está virando errado, desde que se tenha argumentos capazes de convencer o seu semelhante.
O que me deixa inquieta é saber que 90% dos seres humanos de 20 anos atrás permanecem vivos e o que pode ter mudado dentro deles nesse tempo. Ou se a maldade estava apenas escondida e com tanta impunidade que existe hoje, agora ela pode ser escancarada que não terá consequências, ou se tirar vantagem dos outros virou algo extraordinário. Só sei que essa inversão de valores tem tornado o mundo um lugar dificil de se viver. E precisamos urgentemente refletir sobre isso.
A ÁRVORE NÃO ERA DELE
Há atitudes que dizem muito sobre quem as pratica. E cortar uma árvore que não é sua, dentro da propriedade de outra pessoa, diz — e diz muito. Algo que parece banal, mas que acontece com frequência por aqui.
Neste episódio, existem pelo menos dois erros. O primeiro é simples e inquestionável: a árvore não pertencia a quem decidiu cortá-la. Não havia autorização, não havia direito. Havia apenas a velha e perigosa ideia de que “eu faço porque quero”.
O segundo erro é ainda maior: cortar uma árvore como se ela fosse apenas um objeto qualquer.
Árvore não é lixo. Não é entulho. Não é algo que se elimina por capricho. É vida. É sombra, abrigo, equilíbrio, beleza, proteção. Uma árvore leva anos para crescer e pode ser derrubada em poucos minutos por alguém que não teve a educação — ou o respeito — de perguntar antes.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais grave dessa história: o desrespeito.
Desrespeito pela propriedade alheia.
Desrespeito pela natureza.
Desrespeito pela vizinha.
E, acima de tudo, desrespeito pelas regras básicas de convivência, algo que infelizmente virou moda.
O mundo não pode funcionar na lógica do “eu posso tudo”. Não pode valer a vontade de quem grita mais alto, de quem se acha dono da razão ou de quem acredita que ninguém terá coragem de contestá-lo.
Vizinho não é dono do terreno do outro. Muito menos da árvore do outro.
E quando alguém toma para si o direito de decidir o que pode ou não existir na propriedade alheia, não está apenas cortando uma árvore. Está cortando também um pedaço da confiança que deveria existir entre pessoas que vivem lado a lado.
A vizinha ficou indignada — e tem todo o direito de estar.
Porque indignação, neste caso, não é exagero. É reação diante de uma atitude que ultrapassou limites.
Que fique a lição: respeito não é favor. É obrigação.
E para quem acha que pode tudo, talvez seja hora de descobrir que o mundo tem limites — e que a propriedade, a natureza e o direito dos outros não terminam onde começa a sua arrogância.
A árvore não era dele. E o direito de decidir sobre ela também não.






