Uma vida ligada à saúde e à comunidade. “Encantado sempre foi a casa da gente”

A história de Sérgio e Berenice Goldoni começou nas ruas de Encantado, ainda na juventude, quando os encontros da turma aconteciam em bailes, festas e carnavais pela região. Moradores da mesma rua e integrantes do mesmo grupo de amigos, eles passaram a adolescência convivendo de perto até o namoro começar, no carnaval de 1973.
Pouco depois, Sérgio seguiu para Pelotas, onde cursou Medicina. A distância marcou o início da relação, em uma época em que viajar exigia tempo e saudade. Berenice, formada na área de Farmácia e Análises Clínicas, também viveu em Pelotas, onde trabalhou em laboratório e lecionou na Universidade. O casal se casou em 1977 e, após a formatura de Sérgio, passou por Porto Alegre, onde ele fez residência na Santa Casa.
Depois de uma temporada em Victor Graeff, Sérgio e Berenice retornaram a Encantado em 1983. A volta à cidade marcou o início de uma caminhada profissional longa e diretamente ligada à comunidade. Sérgio passou a atuar como médico, com trajetória na cirurgia geral e na endoscopia. Berenice trouxe o laboratório para o município e consolidou uma atuação que já ultrapassa quatro décadas na área de análises clínicas.
Naqueles primeiros anos, a rotina da saúde exigia disponibilidade quase permanente. Sérgio atendia no hospital de manhã, à tarde, à noite, em fins de semana e feriados. A preocupação com pacientes internados, pós-operatórios e atendimentos de urgência fazia parte da vida diária. Muitas vezes, o telefone de madrugada interrompia o sono e mudava os planos da família.
Berenice também viveu os desafios da área da saúde. Entre o laboratório, os plantões e a criação dos filhos, precisou conciliar trabalho e família em uma rotina intensa. O apoio da mãe, das tias e de pessoas próximas foi essencial para que pudesse seguir atuando profissionalmente.
Com o passar do tempo, a medicina e os laboratórios mudaram. Sérgio acompanhou uma época em que o diagnóstico dependia mais da conversa, do exame físico e da observação clínica, antes da chegada de recursos mais modernos. Berenice viu o trabalho laboratorial deixar de ser mais manual e passar a contar com equipamentos automatizados, sem perder a importância do cuidado humano na coleta, na organização e na análise dos processos.
A pandemia de Covid-19 representou uma virada na rotina do casal. Depois de décadas de trabalho intenso, Sérgio reduziu parte da atuação hospitalar e passou a enxergar de outra forma o peso da profissão. Berenice, por integrar o grupo de risco, deixou de entrar no hospital durante aquele período e reorganizou sua rotina no laboratório.
A família ocupa papel central na trajetória dos dois. Os filhos Gabriel, Marcos e Bruno seguiram caminhos próprios, mas mantiveram a marca do exemplo familiar. Gabriel assumiu maior protagonismo no laboratório, dando continuidade ao trabalho da mãe. Marcos seguiu a medicina e atua como cirurgião do aparelho digestivo em Porto Alegre. Bruno construiu carreira na engenharia e também mantém vínculo com Encantado. Hoje, os seis netos dão outro ritmo à vida do casal.
Além da atuação profissional, Sérgio também teve participação comunitária e política. Foi vereador e vice-prefeito, embora reconheça que sempre se identificou mais com reuniões, debates e contribuições nos bastidores do que com a exposição dos cargos. “Se tem algo que me arrependo foi ter concorrido” admitiu. O envolvimento com entidades, Igreja, Clube Comercial e ações da comunidade também fez parte da caminhada dos dois.
Encantado, para Sérgio e Berenice, nunca foi apenas o lugar de origem. Mesmo nos anos vividos fora, o vínculo com a cidade permaneceu. As raízes familiares, os amigos, as ruas e a história construída no município fizeram do retorno uma escolha natural.
Entre a saúde, a família e a participação comunitária, o casal ajudou a construir parte da história recente de Encantado. Uma trajetória feita de trabalho, renúncias, mudanças e pertencimento a uma cidade que, para eles, sempre foi casa.






