Enchentes

Reconstrução ainda redesenha o Vale

Mais de dois anos após a enchente de maio de 2024, o Vale do Taquari já recuperou parte da infraestrutura destruída, abriu novos projetos habitacionais e começou a transferir famílias para áreas consideradas mais seguras. A reconstrução, porém, ainda não terminou.

Municípios seguem com obras, reassentamentos e restrições em locais atingidos. Em alguns pontos, bairros não voltarão a ser ocupados como antes. Em outros, famílias ainda aguardam moradia definitiva ou dependem de estruturas provisórias.

O resultado é uma região diferente daquela que existia antes das cheias de 2023 e 2024.

Moradia segue no centro da reconstrução

A habitação concentra uma das maiores frentes abertas no Vale.

Em Lajeado, 190 famílias haviam comprado novas casas pelo programa Compra Assistida até abril de 2026. Cerca de 400 unidades habitacionais estavam em construção.

No auge da crise, aproximadamente 900 famílias receberam aluguel social. Em abril deste ano, cerca de cem ainda dependiam do benefício. O município contabiliza R$ 12,8 milhões em recursos próprios destinados ao programa.

Lajeado também iniciou a retirada de imóveis condenados em áreas de arraste. A Defesa Civil identificou 202 lotes em sete zonas de alto risco. Conforme ocorre o reassentamento das famílias, os terrenos deixam de receber moradias.

Encantado amplia projetos habitacionais

Em Encantado, três programas reúnem 330 novas moradias previstas.

O Minha Casa, Minha Vida – Calamidades contempla 180 unidades, entre apartamentos e casas. Outras 50 moradias estão previstas pelo Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social e mais 100 pelo programa estadual A Casa é Sua – Calamidade.

As unidades atendem principalmente famílias que perderam o único imóvel, tiveram a casa interditada ou moravam em áreas classificadas como de risco.

A mudança também alcança municípios próximos.

Muçum trabalha com necessidade estimada de aproximadamente 500 novas moradias e adotou medidas para impedir reconstruções em locais considerados de alto risco.

Roca Sales, assim como Encantado e Muçum, integra os municípios incluídos no Plano Integrado para Requalificação Urbanística do Vale do Taquari.

Novos bairros mudam o mapa das cidades

A reconstrução habitacional avança em diferentes pontos da região.

Em Estrela, foi autorizada a construção de 800 moradias pelo Minha Casa, Minha Vida – Calamidades. Considerando outros projetos e o Compra Assistida, a projeção municipal supera 1,6 mil soluções habitacionais.

Em Arroio do Meio, um projeto prevê infraestrutura e 294 moradias no bairro Medianeira.

Esses projetos representam uma mudança importante em relação aos primeiros meses depois da tragédia. A prioridade já não está apenas em substituir casas destruídas, mas também em retirar famílias de áreas onde o risco permanece.

Áreas atingidas ganham outra destinação

Parte das cidades não deverá voltar ao desenho anterior à enchente.

O Plano Integrado para Requalificação Urbanística do Vale do Taquari prevê R$ 191,78 milhões em ações para Estrela, Muçum, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Roca Sales, Encantado, Colinas, Lajeado e Venâncio Aires.

Entre as medidas estão a aquisição de propriedades em zonas de arraste e o bloqueio de novas ocupações residenciais em pontos considerados vulneráveis.

Na prática, terrenos onde havia casas podem passar a receber áreas ambientais, espaços públicos ou permanecer sem ocupação residencial.

Planos diretores incorporam mapas de risco

As enchentes também alteraram a forma como os municípios planejam o crescimento urbano.

A Univates trabalha na revisão de planos diretores de cidades atingidas, utilizando mapas de inundação, enxurradas, deslizamentos e zonas de arraste.

Essas informações passam a orientar quais áreas podem receber novos bairros, onde construções precisarão obedecer a restrições e quais pontos deverão permanecer livres de ocupação.

O planejamento urbano ganhou, assim, uma função mais direta na reconstrução: impedir que novos empreendimentos repitam ocupações consideradas vulneráveis.

Pontes e estradas ainda exigem obras

A infraestrutura rodoviária também apresenta dois cenários.

Em alguns pontos, ligações destruídas já foram recuperadas. Em Canudos do Vale, a ponte sobre o Arroio Forquetinha, levada pela enchente de maio de 2024, foi reconstruída com R$ 3,276 milhões do governo federal e inaugurada em 2025.

Em outros, os problemas continuam.

A ponte da ERS-129 entre Encantado e Muçum voltou a ser interditada após a cheia de julho de 2026. O bloqueio afeta uma ligação estratégica da região e obriga moradores, trabalhadores e empresas a utilizar trajetos alternativos.

O Estado também projeta novos investimentos rodoviários. O Bloco 2 de concessões do Vale reúne R$ 1,3 bilhão aprovado.

Cheia de julho mostrou que o risco permanece

A elevação do Rio Taquari em julho de 2026 voltou a provocar alagamentos, interdições e retirada preventiva de moradores.

Em Arroio do Meio, famílias deixaram suas casas quando o nível do rio ultrapassou novamente a cota de inundação.

O episódio ocorreu em uma região ainda em reconstrução e reforçou a necessidade de manter estruturas de monitoramento mesmo nos municípios onde parte das obras já foi entregue.

Defesa Civil e prefeituras ampliaram sistemas hidrometeorológicos, alertas e planos de contingência desde 2024.

Vale ainda cresce enquanto se reconstrói

A reconstrução ocorre ao mesmo tempo em que a população regional continua aumentando.

Estimativa do IBGE com referência em 1º de julho de 2025 aponta cerca de 383,6 mil habitantes nos 38 municípios considerados na composição ampliada do Vale.

Lajeado permanece como o maior município da região, com aproximadamente 96,9 mil moradores.

Esse crescimento aumenta a pressão por novas moradias, infraestrutura e áreas disponíveis para expansão justamente quando parte do território passa a sofrer restrições.

Dois anos depois, a reconstrução muda de perfil

O Vale do Taquari de 2026 já não vive o mesmo cenário emergencial dos primeiros meses após a enchente.

Pontes foram reconstruídas, novas casas começaram a sair do papel e famílias deixaram imóveis provisórios. Ao mesmo tempo, reassentamentos continuam, áreas de risco perdem ocupação residencial e obras de infraestrutura permanecem abertas.

A principal mudança aparece no próprio desenho das cidades.

Mais de dois anos depois da enchente, a reconstrução deixou de significar apenas recuperar o que a água destruiu. Agora, municípios também precisam decidir onde voltar a construir, quais regiões deverão permanecer desocupadas e como reduzir a exposição das cidades às próximas cheias.

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