Crise moral

É difícil olhar para o atual cenário institucional brasileiro sem preocupação. As informações divulgadas sobre possíveis relações entre autoridades, integrantes do Supremo Tribunal Federal — notadamente o ministro Alexandre de Moraes — e o banqueiro Daniel Vorcaro levantam questionamentos que, pela gravidade, precisam ser esclarecidos com independência, transparência e sem qualquer tipo de proteção corporativa.
A mais recente informação, de que Moraes teria participado da redação de um contrato de R$ 131 milhões envolvendo Vorcaro e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, se confirmada, é mais um tapa na cara do cidadão que ainda precisa acreditar na Justiça.
E o problema vai muito além de nomes, partidos ou posições políticas. Quando surgem suspeitas de conflito de interesses envolvendo justamente quem tem o poder de investigar, acusar ou julgar, a credibilidade das instituições é atingida em cheio. E Justiça sem credibilidade perde aquilo que deveria ser sua maior força: a confiança da sociedade.
A sensação que fica para muitos brasileiros — e esperamos que para cada vez mais — é preocupante: quem estabelece as regras também participa do jogo e, em determinadas situações, pode acabar julgando questões que envolvem pessoas ou interesses próximos. Evidentemente, denúncias e suspeitas precisam ser comprovadas. Mas justamente por isso situações dessa gravidade exigem explicações claras, investigação rigorosa e absoluta transparência.
O Brasil já vive uma polarização que transforma praticamente tudo em disputa política. Neste caso, porém, não deveria importar se alguém é de direita, de esquerda ou de centro. É preciso separar fatos de narrativas e cobrar das autoridades algo que deveria ser básico: investigação completa, transparência e igualdade perante a lei.
Talvez a maior crise brasileira hoje nem seja política. É uma crise moral e, principalmente, uma crise de confiança. Quando o cidadão começa a desconfiar de que as mesmas regras não valem para todos, não perde apenas uma autoridade ou uma instituição. Perde o país inteiro.
E algumas perguntas precisam ser feitas: qual é a posição da OAB? Da Ajuris? Das entidades que representam juízes, advogados e demais operadores do Direito? Onde estão as manifestações das igrejas, dos sindicatos e das organizações que tantas vezes se apresentam como defensoras da sociedade?
E, finalmente: o que fará o Senado? O que o próprio Supremo ainda tem a dizer ao povo brasileiro?
Vamos simplesmente engolir mais essa, seguir em frente e depois continuar reclamando que os valores perderam importância?
Porque valores não desaparecem sozinhos. Eles perdem importância quando a sociedade começa a aceitar como normal aquilo que jamais deveria ser normalizado.






