Política

PF liga mensagens de Vorcaro a Moraes; citado no relatório, Gonet pede anulação

Brasília terminou esta terça-feira diante de uma crise que já não envolve apenas Daniel Vorcaro, o Banco Master e Alexandre de Moraes. Ao longo do dia, vieram a público mensagens atribuídas ao banqueiro, registros de encontros, contratos milionários e pedidos para que o ministro intercedesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

No início da noite, o caso ganhou uma nova camada: Gonet, que também é mencionado no material, pediu a anulação do relatório da PF. Ele sustenta que André Mendonça não poderia ter ordenado uma investigação sobre outro ministro sem provocação do Ministério Público ou iniciativa da própria polícia. Até agora, porém, o relatório não foi anulado. A PGR apresentou um pedido, cuja validade ainda será decidida pelo STF. 

De onde surgiu o relatório

O documento que provocou a crise tem 218 páginas, foi concluído pela Polícia Federal em 27 de agosto e analisa dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, apreendido quando ele foi preso, em novembro de 2025.

Vorcaro é investigado na Operação Compliance Zero, que apura fraudes estimadas em aproximadamente R$ 12 bilhõesna negociação de carteiras de crédito entre o Banco Master e o Banco de Brasília, o BRB. O aparelho recolhido na prisão tornou-se uma das principais fontes da investigação. 

A análise foi determinada por André Mendonça depois que investigadores encontraram referências a autoridades com foro no Supremo. Mendonça deu 72 horas para que a PF identificasse as pessoas mencionadas e esclarecesse a existência de uma possível rede de influência e monitoramento de investigações.

Nesta terça-feira, o ministro retirou o sigilo da Petição 16.662, tornando públicos o relatório, as mensagens e os documentos anexados. Mendonça também conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, e defendeu que o caso seja analisado em uma sessão presencial e pública do plenário. A data ainda não foi marcada. 

Como a PF relacionou as mensagens a Moraes

Vorcaro aparentemente adotava um procedimento para dificultar a preservação das conversas. Ele escrevia os textos no aplicativo de notas do iPhone, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp, algumas vezes pelo recurso de visualização única.

Por isso, o relatório não apresenta uma conversa convencional, com todas as mensagens de ida e volta. A PF recuperou principalmente os textos produzidos por Vorcaro e cruzou horários, capturas de tela, registros de uso dos aplicativos e dados temporários do aparelho.

Em um dos exemplos descritos, uma captura de tela foi produzida e, 32 segundos depois, o WhatsApp registrou o envio de conteúdo para um terminal salvo no celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A perícia repetiu esse cruzamento em dezenas de registros e concluiu que havia compatibilidade entre as notas encontradas e o contato atribuído ao ministro. 

Os números de telefone associados a Moraes haviam sido repassados a Vorcaro pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria em dezembro de 2023. No aparelho, os números apareciam salvos sob quatro identificações diferentes relacionadas ao ministro.

Isso é importante porque Moraes havia negado anteriormente que as mensagens fossem dirigidas a ele e classificado essa conclusão como uma inferência falsa. O novo relatório da PF procura responder a essa negativa por meio da reconstrução técnica dos envios. Ainda assim, as respostas atribuídas ao ministro não foram recuperadas, e não existe até o momento uma conclusão judicial definitiva sobre a autoria ou o significado das conversas. 

Os pedidos às vésperas da prisão

As mensagens mais graves concentram-se entre o fim de outubro e a prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025. Segundo a PF, o banqueiro demonstrava conhecimento de que alguma medida poderia ser tomada contra ele e buscava ajuda para impedir, limitar ou adiar a atuação dos investigadores.

Em 30 de outubro, Vorcaro escreveu que era importante reforçar a situação com “Andrei e Paulo”, para evitar que pessoas subordinadas tomassem alguma medida contra o banco. A PF considera que as referências eram a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e a Paulo Gonet, procurador-geral da República. 

Nos dias seguintes, Vorcaro perguntou se as medidas cogitadas seriam buscas, prisões ou quebras de sigilo e se havia possibilidade de bloqueá-las. Em outra mensagem, quis saber se, por meio de Andrei, seria possível “segurar” ou atrasar a operação.

No sábado anterior à prisão, ele perguntou ao interlocutor: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. A mensagem é interpretada pelos investigadores como uma consulta sobre a necessidade de deixar o Brasil. Na segunda-feira, Vorcaro voltou a pedir um encontro e foi preso horas depois, no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar em um voo internacional. 

Outras mensagens mostram Vorcaro agradecendo a Moraes e tratando a relação como algo pessoalmente importante. Há referências a gratidão, proteção, encontros reservados e à necessidade de “desarmar” problemas que ameaçavam a operação de venda do Banco Master.

O conteúdo é politicamente explosivo porque indica que o banqueiro acreditava ter acesso ao ministro e que esse acesso poderia ser utilizado para alcançar os comandantes da PF e da PGR. Mas o relatório, isoladamente, não demonstra que Moraes tenha aceitado os pedidos, que tenha transmitido informações sigilosas ou que Andrei e Gonet tenham tomado alguma providência em favor de Vorcaro.

Os encontros e o contrato de R$ 131 milhões

O relatório também reconstrói a aproximação pessoal e profissional entre Vorcaro e a família de Moraes. Fábio Faria aparece como intermediário dos primeiros contatos, compartilhando os números do ministro, organizando reuniões e sugerindo encontros informais.

Pouco depois dessa aproximação, o Banco Master firmou contrato com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

O primeiro contrato previa o pagamento de R$ 3 milhões líquidos por mês durante 36 meses, totalizando R$ 108 milhões líquidos. Com impostos, o valor previsto chegava a aproximadamente R$ 131,3 milhões. Isso não significa que todo o montante tenha sido pago: o contrato foi encerrado com a liquidação do banco, em novembro de 2025. 

A PF afirma que os metadados do arquivo mostram que a última modificação do documento foi feita por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, antes da assinatura, em janeiro de 2024.

O escritório explicou que Moraes foi consultado, na condição de marido da sócia-administradora, apenas para verificar se existia algum impedimento jurídico. Segundo a banca, o ministro não julgava processos relacionados ao Master naquele momento e os serviços contratados foram efetivamente prestados. 

Mensagens internas também mostram que Vorcaro tratava os pagamentos ao escritório como prioridade. Em determinado momento, afirmou que a parcela não poderia atrasar e autorizou o desembolso antes da emissão da nota fiscal, que seria providenciada posteriormente. O registro chama atenção pela urgência e pela deferência dispensada ao contrato, mas, sozinho, não comprova irregularidade tributária ou financeira.

O segundo negócio de R$ 50 milhões

A PF também localizou um segundo documento, datado de maio de 2025, envolvendo uma empresa de Vorcaro e o escritório Barci de Moraes.

O negócio teria valor de R$ 50 milhões. Desse total, R$ 40 milhões seriam quitados mediante a transferência de participações em um jato Legacy 650 e em um helicóptero EC155 B1. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas de voos.

O escritório de Viviane Barci, entretanto, nega que esse segundo contrato tenha sido celebrado e afirma que o único acordo existente foi o primeiro, referente aos serviços jurídicos. Portanto, há uma divergência factual: o relatório diz ter localizado o documento e mensagens relacionadas ao negócio; a banca sustenta que ele não foi efetivamente firmado. 

Onde Paulo Gonet aparece

A situação do procurador-geral vai além da expressão “Andrei e Paulo”. O relatório informa que não foi encontrado no aparelho um contato diretamente salvo como Paulo Gonet, mas descreve uma interlocução indireta por meio do advogado Ciro Soares.

Segundo a PF, Ciro transmitia a Vorcaro mensagens que atribuía ao procurador-geral. Em março de 2025, enviou uma fotografia ao lado de Gonet, realizou chamadas para o banqueiro e depois escreveu que o PGR gostava de Vorcaro e acompanhava os acontecimentos envolvendo o Master.

O relatório registra ainda que Ciro disse a Vorcaro que Gonet havia perguntado se seu filho, Pedro Gonet, poderia acompanhá-los em uma viagem para um evento em Londres. Vorcaro autorizou o pagamento das despesas de Pedro e de Ciro. O evento posteriormente foi cancelado. 

Esses registros não demonstram que Gonet tenha interferido em investigação, recebido vantagem ou atendido aos pedidos de Vorcaro. Mostram, porém, que seu nome e o de um familiar aparecem em uma parte do material que agora a própria PGR quer retirar do processo.

Gonet pede a anulação

No início da noite, Gonet apresentou manifestação sustentando que André Mendonça extrapolou suas atribuições ao determinar à PF que identificasse e apurasse pessoas específicas.

Para o procurador-geral, Mendonça teria imposto uma investigação sobre outro integrante do STF sem que houvesse pedido do Ministério Público ou iniciativa autônoma da polícia. Em sua manifestação, Gonet afirmou que “ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”

A tese da PGR é de natureza processual. Gonet não demonstrou que as mensagens sejam falsas, que os dados não tenham sido encontrados no celular ou que os contratos não existam. Ele argumenta que a ordem dada por Mendonça foi juridicamente inválida e que, por consequência, o relatório produzido a partir dela também deveria ser anulado.

A Polícia Federal registrou no próprio documento uma posição diferente. Os investigadores afirmam que não realizaram novas diligências contra ministros ou integrantes do Ministério Público. Segundo a PF, apenas identificaram, organizaram e expuseram informações que já estavam legalmente armazenadas no aparelho apreendido dentro da investigação do Banco Master. 

Esse será o centro do debate jurídico: Mendonça mandou abrir uma nova investigação contra autoridades ou apenas determinou a análise de provas que já faziam parte de um inquérito regularmente instaurado?

Nada foi anulado até agora

A manifestação de Gonet não encerra o caso e tampouco anula automaticamente toda a investigação do Banco Master.

O pedido da PGR mira a ordem de Mendonça, o relatório sobre as autoridades citadas e eventuais atos derivados dessa determinação. As investigações originais sobre as operações financeiras do Master, a negociação das carteiras com o BRB e outras provas independentes não desaparecem simplesmente por causa dessa manifestação.

Também é incorreto afirmar que a PGR declarou as mensagens falsas. O que Gonet questiona é a possibilidade de utilização processual do relatório. Mesmo que o STF acolha sua tese, isso afetaria a validade jurídica da prova naquele procedimento, e não necessariamente a existência histórica dos arquivos encontrados no telefone.

Ao mesmo tempo, o fato de o próprio procurador-geral ser mencionado no documento cuja anulação requer cria uma situação institucional delicada. A simples citação não prova crime e não produz impedimento automático, mas levanta uma discussão inevitável sobre aparência de imparcialidade e sobre quem deveria representar a PGR nessa parte do caso.

STF entra em rota de colisão

André Mendonça pretende levar a controvérsia ao plenário do Supremo, em sessão presencial. Edson Fachin sinalizou que pode alterar a pauta para permitir a discussão, mas ainda não há data definida.

Mendonça havia concedido cinco dias para que a PGR se manifestasse. Gonet respondeu no mesmo dia em que o relatório foi divulgado, pedindo sua anulação.

A direção da Polícia Federal também demonstra desconforto com o procedimento. Segundo informações publicadas pelo UOL com base em interlocutores, Andrei Rodrigues considera que as ordens de Mendonça podem configurar abuso de autoridade e gerar nulidade. A PF, contudo, não apresentou até o início da noite uma manifestação institucional formal com esse teor. 

Nos bastidores do Supremo, a conversa entre Moraes e Mendonça foi descrita como tensa. Houve relatos de uma discussão forte, mas as assessorias contestaram versões de gritos ou de intervenção física de seguranças, afirmando que ocorreu uma conversa firme entre os ministros. 

No Congresso, parlamentares da oposição retomaram a pressão por impeachment de Moraes. Apesar da ofensiva, aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmam que não há disposição para instalar um processo, especialmente às vésperas das eleições. 

O que o relatório não prova

Apesar da dimensão das revelações, há limites objetivos no material divulgado.

A PF conseguiu relacionar capturas de tela e registros do aparelho a um contato salvo como Alexandre de Moraes, mas não recuperou integralmente as respostas do interlocutor. O documento revela que Vorcaro fazia pedidos e acreditava ter acesso a autoridades, mas não demonstra, por si só, que esses pedidos tenham sido atendidos.

Também não há, até agora, decisão judicial reconhecendo que Moraes tenha interferido na PF ou na PGR, revelado uma operação sigilosa ou praticado crime. Da mesma forma, as menções a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet não provam que os dois tenham participado de qualquer ação destinada a proteger o banqueiro.

Em relação aos contratos, a existência do primeiro acordo é reconhecida pelo escritório, que sustenta ter prestado serviços regulares. O segundo negócio, envolvendo aeronaves, é negado pela banca e ainda precisará ser esclarecido.

O que acontece agora

O Supremo terá de enfrentar duas perguntas antes de entrar no mérito das mensagens.

A primeira é processual: André Mendonça tinha competência para determinar a análise e a identificação das autoridades mencionadas ou precisaria aguardar provocação da PGR ou da própria PF?

A segunda é material: caso o relatório seja considerado válido, os elementos justificam a abertura de uma investigação formal sobre Moraes e sobre as possíveis tentativas de interferência no trabalho da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República?

O caso encerra o dia em um paradoxo institucional. O relatório está público, mas sua validade é contestada. O procurador-geral que pede a anulação é citado no próprio documento. E o Supremo precisará decidir se investiga um de seus integrantes antes mesmo de definir quem tinha autoridade para produzir as informações que chegaram ao plenário.

Essa é a dimensão real do que aconteceu nesta terça-feira: a crise do Banco Master deixou de ser apenas uma investigação financeira e passou a testar a capacidade das principais instituições de controle do país de apurar relações que alcançam seus próprios comandantes.

Publicidade
Botão Voltar ao topo