Bets: 5 milhões já estão fora do jogo

Uma aposta pode começar com poucos reais. O problema aparece quando a próxima deixa de ser uma escolha e passa a ser uma tentativa de recuperar o dinheiro perdido. No Brasil, o avanço das bets já deixou de ser tratado apenas como uma questão financeira e passou a entrar também no campo da saúde mental e da proteção social.
Segundo o Ministério da Fazenda, mais de 5 milhões de brasileiros estão impedidos de apostar online nas plataformas regulamentadas. O grupo reúne cerca de 1,2 milhão de pessoas que solicitaram autoexclusão, aproximadamente 800 mil participantes de uma nova rodada de renegociação de dívidas, impedidos temporariamente de apostar, e cerca de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Os números ajudam a revelar uma dimensão que vai além das perdas financeiras: para parte dos apostadores, parar já não é tão simples.
Quando apostar deixa de ser diversão
O alerta costuma aparecer quando a pessoa perde dinheiro e imediatamente faz uma nova aposta na tentativa de recuperar o valor.
Perde R$ 50. Aposta mais R$ 100.
Perde novamente e aumenta o valor.
A lógica passa a ser: “preciso recuperar o que perdi”.
É justamente esse comportamento que pode transformar apostas inicialmente pequenas em prejuízos cada vez maiores.
O Ministério da Saúde reconhece o Transtorno do Jogo como um transtorno de comportamento aditivo. Entre os principais sinais estão apostar por mais tempo ou com mais dinheiro do que o planejado, tentar recuperar perdas com novas apostas, esconder o comportamento da família, acumular dívidas e não conseguir parar mesmo diante dos prejuízos.
Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta. O próprio Ministério da Saúde alerta, porém, para a possibilidade de subnotificação, já que muitas pessoas demoram a procurar ajuda.
O que acontece no cérebro
A dificuldade de interromper as apostas não está relacionada apenas à força de vontade.
Pesquisas de neuroimagem identificam alterações em circuitos cerebrais ligados à recompensa, tomada de decisão, impulsividade e controle do comportamento em pessoas com transtorno do jogo.
Estudos também apontam diferenças na atividade do estriado, região associada à antecipação de recompensas, além de alterações em funções executivas como controle inibitório e tomada de decisões.
Isso não significa que uma aposta ocasional seja equivalente ao uso de drogas. O ponto de comparação está nos mecanismos de recompensa e, principalmente, na perda de controle presente em diferentes transtornos aditivos.
O problema já chegou ao Vale
O fenômeno nacional também começa a aparecer de forma concreta no Vale do Taquari.
Em Lajeado, o CAPS AD criou um grupo específico para atender pessoas com problemas relacionados às apostas, após identificar procura por acompanhamento devido à dependência em jogos.
Entre os sinais relatados nesses casos aparecem preocupação constante com as apostas, ansiedade, irritabilidade, isolamento, problemas financeiros e tentativas frustradas de parar.
A criação do grupo mostra que o assunto deixou de estar restrito às telas dos celulares e já chegou aos serviços de saúde da região.
Apesar disso, ainda não existe uma base pública oficial que permita apontar qual município do Vale do Taquari possui o maior número de apostadores ou de pessoas com dependência relacionada às bets.
Governo amplia os bloqueios
Além das medidas voltadas aos apostadores, o governo federal vem ampliando a fiscalização sobre as empresas do setor.
A Secretaria de Prêmios e Apostas mantém mecanismos para identificar pessoas impedidas de utilizar as plataformas regulamentadas, incluindo beneficiários de programas sociais e pessoas que solicitaram a própria exclusão.
Também existe uma Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao apostador solicitar o bloqueio do acesso às bets autorizadas por determinado período ou por tempo indeterminado.
O governo mantém ainda uma relação oficial das empresas autorizadas a operar no Brasil, permitindo que os usuários verifiquem se determinada plataforma está regularizada.
O primeiro sinal pode aparecer antes da dívida
Nem sempre o maior alerta está no saldo bancário.
Antes de uma dívida elevada, podem surgir outros comportamentos: pensar constantemente em apostas, esconder os valores gastos, aumentar progressivamente as quantias apostadas, comprometer dinheiro destinado às contas de casa ou prometer parar e não conseguir.
Para quem percebe perda de controle, a orientação é procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um CAPS, onde é possível receber avaliação e acompanhamento.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja quanto a pessoa já perdeu.
Mas se ela ainda consegue decidir quando parar.






