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#ColunaDaMari| Dia Internacional da Mulher: respeito não é concessão, é princípio

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, mais uma notícia brutal sacode o país: o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana. O caso se soma a uma estatística que cresce de forma alarmante — feminicídios e violência contra mulheres em escalada. Não é episódio isolado. É mais um sinal de alerta sobre o quanto ainda precisamos avançar, especialmente quando o assunto é educação, respeito e responsabilidade coletiva. E quando falamos em educação, falamos sobretudo daquela que começa dentro de casa. Formação de valores, empatia e respeito pelo outro não nascem apenas na escola ou nas leis. Nascem na família, no exemplo, na forma como ensinamos nossos filhos a enxergar o mundo. Em meio a tantos discursos que surgem e somem nas redes, algumas ideias foram distorcidas. Entre elas, a romantização de um suposto retorno à “família tradicional” — interpretada por alguns como uma estrutura em que a mulher deve ser submissa, silenciosa e limitada a lavar, passar, cozinhar e criar filhos. Um modelo que lembra mais costumes de séculos passados do que a realidade contemporânea. Confesso que fui criada dentro de um ambiente com regras rígidas. Cada vez que eu saía à noite, minha mãe repetia a mesma frase: “Tu tem que te dar ao respeito.” Para ela, era cuidado. E cresci carregando essa orientação comigo. Mas aprendi que respeito não pode ser obrigação unilateral. Não é algo que apenas a mulher deve demonstrar para merecer dignidade. É via de mão dupla. Princípio básico de convivência. Mesmo assim, nunca escapei de julgamentos. Fui rotulada pela forma como me vestia. Em alguns lugares, ainda sou lembrada como “a menina dos vestidos curtos” — rótulo que revela mais sobre o olhar preconceituoso de quem o diz do que sobre qualquer traço da minha personalidade. O que um vestido curto tem a ver com caráter, inteligência ou competência? Nada. E, no entanto, a aparência feminina ainda é usada como justificativa para desrespeito e, em casos extremos, violência. Esse pensamento é perigoso porque normaliza a transferência de culpa para a vítima. Quantas vezes, diante de um estupro, surgem comentários sobre a roupa, o comportamento ou o lugar onde a mulher estava — em vez de se responsabilizar exclusivamente o agressor? Muitas agressões começam aí: na naturalização do julgamento, na tolerância com comentários que desumanizam, na cultura que insiste em controlar o corpo e a liberdade feminina. Ainda precisamos repetir o óbvio: nenhuma roupa, nenhuma escolha, nenhum comportamento justifica violência. E não significa sempre não. O Dia Internacional da Mulher não deveria ser apenas flores, promoções ou homenagens superficiais. Existe para lembrar a luta histórica por direitos, dignidade e igualdade — uma luta que começou nas fábricas, nas ruas e nas vozes de mulheres que se recusaram a aceitar a invisibilidade. Afinal, todos nós existimos porque uma mulher nos trouxe ao mundo. Que possamos transformar essa lembrança em respeito real, valorização verdadeira e educação para que as próximas gerações cresçam entendendo que igualdade não é favor — é direito. E talvez a forma mais poderosa de começar seja dentro de casa.

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